14 março 2024

 

OS  LAMBANCEIROS

- crônicas poçõenses -

 Havia sempre um moleque manioso em Poções procurando lambança. Cada um tinha sua turma e todo dia procurava-se uma novidade para brincar, seja depois das aulas, durante o ano ou o dia todo durante as férias.

 João Batatinha, Zoma, Adilson Fagundes, Antonio Napoli, Dau Cachimbo de Pau, Raimilson e Ozail Gusmão, andavam em bando nas obras para a construção do açude novo, e ficaram impressionados quando viram o tamanho das rodas das máquinas. A esteira do trator hipnotizava a todos. Quando um dos tratores caiu dentro do açude foi um corre corre da meninada para saber o que aconteceu: morreu o tratorista ou foi salvo por um mergulhador ? a noticia se espalhava e aquela gente curiosa ia ver a novidade.

Do paredão da barragem do açude, a molecada descia correndo destrambelhada, sem pensar nos perigos. E no meio das baronesas disputavam para ver quem mergulhava mais fundo e só pararam quando alguém disse que havia visto a cara de “Quatro Olhos”, que havia morrido afogado. Nem a cuia com a vela acesa que foi colocada sobre as águas achou o corpo.

Abaixo do açude novo ficava o açude velho, que já não dava mais conta. O grande paredão de pedras estava rachado e já havia sido coberto pelas águas várias vezes, ameaçando inundar a cidade. Nestas ocasiões era a sirene do Cine Glória que alertava a população, de dia ou de noite. Meu pai costumava me levar lá para passear , aos domingos, e eu ficava impressionado e temeroso com aquelas águas de um  azul-escuro, com as baronesas boiando, mas a mão do meu pai era minha segurança.

 Mais abaixo do açude velho havia uma grande cisterna, que nos metia medo, profunda e com grandes sapos mortos  lá dentro.  E, já perto da rua, uma enorme gameleira onde se dizia que havia tesouros enterrados, junto ao seu tronco. Eram talvez lendas do tempo dos Gonçalves da Costa quando da exploração de ouro ou da época dos jagunços, que escondiam munições. Alta e esgalhada a imponente e solitária gameleira não dizia que sim nem que não.

Era lá na cisterna que as empregadas iam buscar areia fina para arear as panelas de alumínio. Também era lá que se brincava de seriados, com capas e espadas ,convencionando que o perigo dito  “do meio” era o mais terrível !

 O açude novo também serviu mais tarde de palco para guerras com espingardas de socar, com um grupo de cada lado e as lavadeiras no meio gritando: “- Pára, meninos endiabrados, pára !”

Os caroços de chumbo no antebraço de Gey Espinheira, até hoje, não me deixam mentir.

Com a chegada do circo, os lambanceiros não saiam da praça, e tudo era motivo de euforia redobrada. Todos queriam saber se tinha animais amestrados, qual o nome do palhaço e o horário da função. Acompanhado pela algazarra dos moleques lá se ia o palhaço da perna de pau anunciando o circo pela cidade:

“- E viva o sol e viva a lua

Olha o palhaço no meio da rua !”

À noite, apesar da vigilância do mata-cachorro, havia sempre uma treita para entrar por baixo da lona, e subir nas arquibancadas para ver o espetáculo. No intervalo as artistas iam para a arquibancada vender um monóculo com a foto colorida da trapezista.

Certa vez uma delas, muito bonita, apaixonou-se por Carlos Ney, que era um dos rapazes mais charmosos de Poções. Nós todos torcíamos para que aquele amor impossível desse certo. Ele dedicava anonimamente músicas românticas para ela, no serviço de alto falante da cidade. Este serviço pertencia à  Prefeitura e depois passou para Tonhe Luz, divulgando notícias e músicas em todo o comércio.

Carlos Ney e a trapezista encontravam-se às escondidas da família e do dono do circo. Um dia o circo foi embora, levando a bela trapezista e o seu destino.

 Mas a cada Festa do Divino grandes novidades chegavam, entre elas o parque de diversões. E os moleques de calça curta, suspensórios e alpercatas de pneu arregalavam os olhos quando giravam na roda gigante colorida, ondulavam no carrossel mambembe, ou balançavam nos barcos que eram empurrados à mão.

A chegada eventual de acampamentos ciganos e as feiras aos sábados, mantinham os lambanceiros ocupados. Um se aproximava da pilha de melancias e furava uma delas. O outro então procurava o dono das melancias e dizia “- Seu home, me dá essa que ta furada...” e lá se iam rindo do coitado e chupando a melancia. Depois pegavam um cavalo que estava amarrado, davam uma volta com ele e quando o dono aparecia diziam “- Seu moço, olha o seu cavalo que nós apanhamos aculá e viemos procurar o dono ...”.

Naquele tempo faltava tempo para se fazer tudo que se inventava...

 

                                        João Batatinha

Ainda hoje, da porta de sua tipografia, João Batatinha jura que já viu o pintor Adilson Santos, como nas visões de seus quadros surrealistas, cercado de pombas, andando pelo fundo de quintal com a noiva da cidade.

Eduardo Sarno

Jan/98

 

O BECO LÁ DE CASA (2)

- crônicas poçõenses -

 Imprensado entre minha casa e o Cine Glória, nosso  beco era  muito freqüentado. Ali ficava também o escritório de Brás Labanca.

 Baixo, forte e simpático, este italiano dono da Empresa de Luz Elétrica Pública e Particular de Poções, nunca se negava a nos dar uma “nica” (níquel) quando pedíamos. Foi com tristeza e curiosidade que assistimos à derrubada da parede da usina que dava para o beco, para que técnicos paulistas pudessem tirar  a enorme polia avariada, silenciando o gerador diesel. Uma peça nova viria do Sul, disseram. Nunca chegou.

No nosso portão, que dava para o beco, tinha umas argolas no muro que servia para amarrar os jumentos dos aguadeiros. Cangalha de quatro corotes,ou "carotes" como se dizia em Poções, lá se iam e lá vinham, trazendo aquela água cristalina e saborosa, a água de Cachoeirinha.

 No inicio do beco, os três pequenos buracos no chão, enfileirados como as Três Marias que víamos no céu, eram do tamanho de um punho fechado, e era ali que a gente brincava de bola de gude, nas tardes intermináveis. Para ganhar, tínhamos de conquistar os três buracos na seqüência, e afastando as bolas dos adversários. Às vezes, com rolimãs de aço, tentávamos quebrar as bolas de gude dos outros meninos. Era admirado quem fosse maneiroso para segurar as bolas de gude, ter boa pontaria e força.

Ninguém sabia como e nem porque, e de repente estávamos todos mudando de jogo, às vezes no mesmo período de férias. Quando era época de pião, os buracos de gude ficavam abandonados e o bamba era quem  colocava o pião na unha para rodar, e o super bamba era quem pegava ele no ar, na unha! Os menos destros ficavam maravilhados e algumas vezes se machucavam na tentativa de imitar. No circulo riscado no chão o pião de ponta de aço rachava os outros no meio. Para não perder o bom pião, valia trocar por um mais ordinário, na hora de levar a porrada.

Passado o tempo do pião, agora eram duplas batendo tampinhas de refrigerante desamassadas nas paredes do beco. Eram as “fichas” . Ganhava quem rebatesse mais perto da ficha do adversário. Apostava-se carteira de cigarros vazia. O “Astória” valia menos, “Continental” um pouco mais, e " Roliude” já era  um valor razoável.

 Cada garoto tinha no bolso o seu maço de carteiras bem alisadas e classificadas, e quando  chegavam fumantes de fora íamos ver se não trazia “Marlboro”: valia três “Roliude”! O maço podia aumentar se fossemos para a rua procurar carteiras vazias, ou diminuir se perdêssemos na ficha.

O papel colado ao alumínio que envolvia os cigarros era cuidadosamente dissolvido na água e a fina  película de alumínio que ficava, era utilizada para formar enormes e pesadas bolas, as maiores chegando a ter vinte centímetros de diâmetro! Era uma espécie de troféu.

Passou a época das fichas, agora o que vale é “triangulo”. Cada garoto já carrega o seu canivete ou estilete. Procura-se uma boa parte do beco em que o chão seja mais consistente, desenham-se dois triângulos, e um tenta cercar o outro traçando linhas a partir do ponto onde se fincou o estilete, no arremesso. Se este não fincar, perde-se a vez. A grande destreza era fazer o canivete rodopiar no ar antes de fincar no chão. Iniciava o jogo quem fincasse mais próximo de uma linha traçada no chão.

Já esquecemos o triangulo, agora é tempo de “setas” : um prego afiado, três ou mais penas de galináceo e cera de abelha para dar  peso e segurar o prego nas penas.

E lá se vão todos procurando portas e janelas no beco para treinar a pontaria e disputar pontos nos alvos.

Talisca de bambu, cola, papel de seda e linha Urso número zero. Chegou a época de empinar papagaios e arraias. Pequenas, grandes, coloridas e longos rabos de retalhos de pano. Algumas tinham linhas “temperadas” com pó de vidro e goma arábica, para cortar mais fácil a linha dos outros. Quando isso acontecia, era a festa para a molecada, que saía correndo atrás da arraia que caía.

Até o Dr. Ruy Espinheira fez um “Couro de Boi” que maior nunca se viu, todos paravam para ver e pediam para dar uma puxadinha na linha,ou colocar um “telegrama” que era um pedaço de papel que  subia na linha até a arraia.

Como o beco é muito pequeno para empinar papagaio, nós fomos para a Praça do Obelisco.

Acho que ficamos lá por muitos anos, pois  quando voltamos ao beco ele estava calçado, Brás Labanca havia falecido, o Cine Glória era agência bancária e a argola estava toda enferrujada.

 

                                Escritório de Brás Labanca
Eduardo Sarno

Nov/2003

 

 

O BECO LÁ DE CASA (1)

- crônicas poçõenses -

 O  beco entre nossa casa e o Cine Glória era o meu local preferido para as brincadeiras.

 No chão do beco havia   três pequenos buracos, enfileirados como as Três Marias no céu.  Ali  brincávamos de bola de gude, nas tardes intermináveis.

 O ganhador tinha de conquistar os três buracos na seqüência,  afastando as gudes dos adversários. Às vezes, com rolimãs de aço, tentava-se quebrar as bolas de gude dos outros meninos. Era admirado quem fosse maneiroso para segurar as bolas de gude, ter boa pontaria  e dedos compridos, para marcar o círculo em que a gude do adversário seria apanhada.

 Ninguém sabia como, e de repente todos mudavam de jogo, às vezes no mesmo período de férias. Quando era época de pião, os buracos de gude ficavam abandonados e o bamba era quem  colocava o pião na unha para rodar, e o super bamba era quem pegava ele no ar, na unha! Os menos destros ficavam maravilhados e algumas vezes se machucavam na tentativa de imitar. No circulo riscado no chão o pião de ponta de aço rachava os outros ao meio. Para não perder um bom pião, valia trocar por um mais ordinário, na hora de levar a porrada.

 Passado o tempo do pião, agora eram duplas batendo tampinhas de refrigerante desamassadas, nas paredes do beco. Eram as “fichas”, com tampinhas do guaraná e gasosas da  Fratelli Vita . Ganhava quem rebatesse mais perto da ficha do adversário. Apostava-se carteiras de cigarros  vazias, alisadas e bem dobradas. O papel  que envolvia os cigarros era cuidadosamente dissolvido na água,  e a fina  película de alumínio que ficava era utilizada para formar enormes e pesadas bolas, as maiores chegando a ter vinte centímetros de diâmetro! Era uma espécie de troféu.

 O Astória valia menos, Continental um pouco mais, e  “Roliude” já era  um valor razoável. Cada garoto tinha no bolso o seu maço de carteiras  , e quando  chegavam fumantes de fora ia ver se não traziam “Malboro” ou “Luquistrique”: valiam três “Roliude”! O maço  aumentava quando se achava carteira vazia, ou diminuía  perdendo na “ficha”.

  Passada a época das “fichas”, agora o que vale é  “triângulo”. Cada  garoto já carrega o seu canivete ou estilete.  Procurava-se no beco um lugar que fosse mais consistente, riscava-se  no chão dois triângulos separados , no arremesso  tentava-se cercar o outro traçando linhas a partir do ponto onde se fincou o estilete. Se este não fincar, perde-se a vez. A grande destreza era fazer o canivete rodopiar no ar antes de fincar no chão. Iniciava o jogo quem fincasse mais próximo de uma linha riscada no chão.

 Já esquecemos o triângulo, agora é tempo de “setas” : um  prego  afiado, três ou mais penas de galinácea e cera de abelha para dar  peso e segurar o prego nas penas. E lá se vão todos procurando portas e janelas no beco para treinar a pontaria e disputar pontos nos alvos.

 Chegou a época de empinar arraias : talisca de bambu, cola, papel de seda e linha Urso número zero. Pequenas ou grandes, sempre coloridas e longos rabos de retalhos de pano. Algumas tinham linhas “temperadas” com pó de vidro e goma arábica, para cortar  a  dos outros. Quando isto acontecia, era a festa para a molecada, que saía correndo atrás da arraia .

 

Até o Dr. Ruy Espinheira fez uma arraia “Couro de Boi” que maior nunca se viu. Todos paravam para ver e pediam para dar uma puxadinha na linha para sentir a força, ou para colocar um “telegrama”, que era um pedaço de papel que  subia na linha até a arraia.

 Como o beco era muito pequeno para empinar papagaio, nós fomos para a Praça do Obelisco.

 


Acho que ficamos lá por muitos anos, pois  quando voltamos ao beco ele estava calçado, as paredes pintadas e as rodas  dos carros passando por cima da nossa infância.

 Eduardo Sarno

set/2019

13 março 2024

 

OS ITALIANOS E A ÁGUA

* crônicas poçõenses *

 

                                          Seu Joaquim (aguadeiro)
Em Poções, até o final de 1950 não havia água encanada. A cidade era abastecida pelos aguadeiros, que traziam a água em carotes, no lombo de jumentos. Quatro carotes faziam uma carga e era comum vê-los passar pelas ruas. As casas tinham sempre uma entrada de serviço, para este fim, com uma argola no muro, para amarrar os animais.

Os carotes – barris de madeira – com capacidade em torno de 20 litros, eram tampados com tarugos de madeira ou sabugo de milho, envoltos em pano. O furo do suspiro era indispensável, para que a água desse vazão. Tinham duas alças de ferro, para pendurar na cangalha, e que ajudavam na hora em que eram carregados no ombro.

 A água boa de beber vinha de Cachoeirinha, distante uns quatro quilômetros, e era despejada, devidamente coada em um pano de algodão, direto nas grandes talhas de barro. A tampa da talha era redonda, de madeira, com uma haste, para facilitar o manuseio. Dentro eram colocadas pedras de enxofre, pois os filtros de barro com velas só vieram tempos depois.

A água de uso comum vinha do açude do rio São José, mais perto da cidade. Os aguadeiros tinham sempre de subir uma escada para despejar a água no tanque da casa, onde também havia pedras de enxofre.

Tempos depois meu pai mandou instalar uma bomba manual em um pequeno tanque ao nível do chão, onde o aguadeiro ia despejando os seus carotes e  a nós, meninos, cabia a tarefa de acionar a bomba, jogando a água no reservatório superior !

Outra fonte de água era a chuva. Em nossa casa havia um enorme tanque – parte  subterrâneo, parte externo – que acumulava a água de chuva. Quando meu pai estava na Casa Sarno e começava a chover ele ia para casa e manobrava as calhas para que a primeira chuvada- ou “apaga pó”, como é apropriadamente chamada em algumas regiões da Bahia - servisse apenas para limpar as telhas, e logo em seguida a água era canalizada para o reservatório. Fazer calhas e bicas era um trabalho artesanal, feitas sob medida com folhas-de-flandres pelos funileiros locais, como Deco Lago e Flávio Funileiro.

 Em frente à nossa casa, o aguadeiro favorito dos tios Valentim, Camilo e Emílio era Zé Peteleca. Alto, muito ativo e sorridente, quando passava pela varanda da casa e via Rosa Alba, minha prima, com duas trancinhas no cabelo e rosto redondinho  de anjo, dizia: “Bom dia, minha prencesa !”  Rosa ficava maravilhada, divagando no imaginário das fadas, castelos e príncipes ...

Mais acima, ainda na Rua da Itália, Luis Sarno, com o terreno da casa em declive, fazia malabarismos mecânicos para coletar e distribuir a água na casa, para uso da família e do seu lazer predileto: cuidar das plantas e árvores frutíferas.

 Havia ainda uma outra opção em nossa casa, que era a cisterna. Diferente da cacimba, a cisterna tem uma proteção de alvenaria em volta e é coberta. Quando olhávamos para o fundo podíamos ver as enormes pedras que foram quebradas para se atingir o minadouro. Era um terror para nós, meninos, pensar em cair ali dentro !

A água da cisterna era retirada com roldana, e era uma arte encher o balde de água, lá em baixo, na ponta da corda. Depois foi colocada uma bomba manual. Mas a água era “pesada”, um pouco salobra, não se prestando para o uso doméstico. Ela era então despejada em um grande tambor forrado de cimento, que ficava no meio do jardim, e servia para regar as plantas.

 Para o banho, meu pai, com a ajuda do cunhado Chico Sangiovanni, mandou fazer um engenhoso sistema de serpentina para aquecer a água. Como a cozinha ficava perto do banheiro, foi colocado um pequeno tanque na parte superior, do qual descia a tubulação que dava uma volta no fogão, que era a lenha. Assim, a água quente era constante e sem custo.

O fogão já vinha equipado com um recipiente esmaltado embutido, que também aquecia a água para o preparo da comida, pois não se usava jogar água fria nas panelas. Minha mãe também conservava uma chaleira com água aquecida, em cima da chapa do fogão, para qualquer eventualidade, como era usual na época.

 Os dormitórios das casas, em geral, ficavam distantes da copa ou da cozinha. Assim, era de grande utilidade o uso das moringas, seja de barro ou de vidro.

Esta dependência do trabalho  dos aguadeiros durou até que foi inaugurada a água encanada, vinda da barragem de Morrinhos, no rio das Mulheres, distante cerca de doze quilômetros, já perto da Serra da Ouricana. Quando abriram o registro, a comitiva de autoridades veio em disparada para Poções, para abrir a primeira torneira que jorraria a água encanada!

 O trabalho para colocar as tubulações nas ruas durou algum tempo, e as valas ficavam abertas.

 Do alambique da fazenda de Waldemar Guimarães – feito por José Domarco – saia uma “branquinha” da qual Quito Fagundes e seus amigos Afonso Manta, Solon Macedo, Irineu Sarno, “Mama na Loba” e Humberto Schetinni eram contumazes consumidores. Contam que, na época em que as ruas estavam com as valas abertas para colocar as tubulações, Quito ao sair cambaleando do bar Sombra da Tarde, ou do Bar e Sorveteria de João Liguori  entrava na vala, que ia dar direto em sua casa.

 Sem as valas ele voltou ao seu habitual meio de transporte após “comer água”: um birimbano (molecote, na gíria local) o levava até em casa em um carrinho de mão!

Já nos tempos da água encanada encontramos Joaquim, velho aguadeiro de mãos calosas, que comentava saudoso e orgulhoso:

“-Já botei muita água na casa de seu Corinto Sarno e de seu Antonio Leto ! “

Eduardo Sarno

11.07.08

 

ESCOLA PRIMÁRIA  ALEXANDRE PORFIRIO

* crônicas poçõenses *


Se me perguntassem quem foi Alexandre Porfírio não saberia responder com clareza. Parece que foi um educador, professor ou algo assim. Já se falou qualquer coisa a respeito do Alexandre Porfírio, mas certamente nada importante, porque a memória não registrou. Para nós alunos, Alexandre Porfírio nada mais era que um cabeçalho que éramos obrigados a escrever em todas as provas e trabalhos, no papel almaço.

Eu não estava sorrindo quando para lá fui levado pela primeira vez. Não. Chorava e esperneava, para  tristeza de minha mãe que, paciente e enganosamente me explicava que teria que ficar ali justo o tempo necessário para que ela terminasse de fazer a macarronada. Logo em seguida eu poderia ir para casa.

As pessoas ali até que não eram estranhas, pois eu conhecia alguns alunos e professores. Mas o que me atemorizava era o lugar em si, ter de estar ali, a relação que se estabelecia, de aluno para professor, as normas que eram obedecidas, com todo  mundo sentado dando lição. Adeus liberdade de ir e vir pelos matos, badocando, de não ter a preocupação de levantar cedo e fazer deveres. Ali  tinha de deixar de ser bicho comodista e virar gente. Fiquei.

Nas paredes, os grandes cartazes coloridos davam conta de todos os tipos de peixes, de plantas e de animais. Tudo numerado, com o correspondente nome embaixo. Nos mapas, cada país de uma cor, tudo bonito de se ver.

Mas, o nó na garganta era a tabuada, Todo mundo em pé, em fila, com as multiplicações, divisões e novesfora sem gaguejar. O nervosismo, o calor e a farda de brim caqui, parecendo fardão militar, com botões dourados, ajudavam a atrapalhar. A tabuada era um folheto pequeno, fino, mas como pesava na nossa cabeça!

Tudo era fila. Para entrar na escola, tinha que fazer fila e cantar o Hino Nacional, Hino da Liberdade ou o Hino da Bandeira. A letra dos hinos estava impressa nos nossos cadernos.

 Depois do recreio também tinha de fazer  fila. Todo mundo suado, empoeirado, fedendo. Esticávamos os braços tocando no ombro do colega para marcar a distancia, mas quando começávamos a andar, era um empurrando o outro, como se não houvesse lugar para todos.

As salas eram grandes, espaçosas, ventiladas. As carteiras grandes para o nosso tamanho, de madeira maciça, cheia de nomes gravados. No meio da carteira  o buraco para colocar o tinteiro. Embaixo, o lanche, a tabuada, o caderno e os  livros e o mata-borrão. Dentro de uma caixinha a pena de bico. Ah! o caderno de caligrafia, obrigatório e inestimável. A caneta tinteiro – Parker e com uma bombinha  de borracha dentro – só aparecia em nossas mãos bem mais  tarde, como presente de conclusão de curso.

  As professoras, não sei por que,  davam a impressão de que estavam ali há muitos anos e que ficariam também por mais tempo do que podíamos imaginar. Tinha um quê de coisa imutável. Esta impressão fica ainda mais viva, quando encontro, quarenta anos depois minhas antigas professoras ainda em atividade: Jacy Rocha, Madalena Curvelo, Celeste Pinto Curvelo, Bohemia Marinho. São como anjos bons, inesquecíveis.

Não me lembro  mais de tudo que aprendi ali. Mas deve ter  servido para muita coisa. Ficava sempre pensando, se depois vou esquecer tudo, para que aprender?

Aprendi que era “gringo” ou filho de “gringo”, que era a mesma  coisa. Gringos eram meus pais e meus tios, comerciantes italianos que haviam se estabelecido em Poções há cinco décadas.

Durante o recreio, o baba era a diversão de todo dia. Suados, empoeirados, assim iam para a fila para poder entrar na sala de aula. Daí o  cheiro de suor, inconfundível, ajudado pelo abafamento do fardão de brim cáqui.

As meninas jogavam “baleado”. O grande final foi um torneio em que disputaram meninos e meninas. Do nosso lado ficou, por último, João Ferraz e no das meninas, Glorinha Macedo.A luta parecia interminável, os dois se esforçavam ao máximo e a torcida já estava rouca. De repente João “baleou” Glorinha! Nesse dia ele foi carregado nos ombros, em apoteose, com direito a uma volta olímpica pela Praça do Obelisco, em frente à Escola.

Hoje, passados muitos anos, eu sei, de cor e salteado, quem foi Alexandre Porphyrio de Almeida Sampaio. Professor de Português do Ginásio da Bahia, em Salvador, publicou em 1924 “Estudos de Português”, fundou  o Ginásio Ypiranga e o administrou por muitos anos quando ainda funcionava no Corredor da Vitória. Vendeu depois para seu amigo e concunhado professor Isaias Alves de Almeida, que o transferiu para a Ladeira da Praça nº 18. Em 1911, tendo comprado a casa onde faleceu Castro Alves,  no Sodré, por 35 contos de reis, o professor Isaias Alves transferiu para lá o Ginásio Ypiranga.

 

Eduardo Sarno

Out/97

 

 

CASA SARNO: UM SÉCULO

 


Fundada em Poções, interior da Bahia no ano de 1896, a Casa Sarno vem  de completar um século de existência.

Francesco  Sarno, natural de Mormanno Itália, aventurou-se primeiro na Amazônia, passando por Manaus. Acompanhado por Fortunato Orrico, amigo e cunhado, resolveram fugir do calor, descendo em direção à Bahia, onde sabiam que encontrariam, em São João de Alípio, atual Jânio Quadros. Miguel Orrico sogro e pai, respectivamente.

Sapateiro por profissão Francesco Sarno pode percorrer algumas cidades do interior do Estado, antes de se fixar em Poções , como comerciante.

O lugar que, em 1817 o Príncipe Maximiliano  de Weid Neuwied havia descrito como “uma dúzia de casas e uma capela feita de barro” não havia mudado muito, mas Francesco Sarno conhecido popular e abrasileiradamente como Chico Sarno, resolveu enfrentar o desafio.

Eram tempos difíceis. Não havia luz elétrica, as comunicações eram demoradas, o abastecimento precário. A presença e a ameaça dos jagunços, como o bando dos Cauassús era uma constante.

À luz do lampião, Chico Sarno  contabilizava pacientemente suas vendas e seus fiados. O inicio do século o encontra devidamente registrado para o comércio de fumo em bruto, tecidos e bebidas alcoólicas. Do madrasto ao brim, da chita ao chitão, da bulgarina francesa às ceroulas de linho, lá estavam os tecidos da época ; para a confecção, os aviamentos apropriados como linha Alexander e botões de vidro; nas ferragens os afamados pregos caibrais ; na alimentação os frascos de ameixas, as libras de manteiga e as latas de sardinhas. Havia sacos de chumbo, barril de pólvora e barrica de salitre. Na caderneta do fiado ou contas do Rol, lá estavam os patrícios João Rotondano, Antonio Gatto, Baptista Scaldaferri, Carlos Colavolpe, José Arléo, Angelo Logetto e outros.

Tendo-se agradado da terra e da gente, Chico Sarno mandou buscar em Mormanno o sobrinho Vincenzo Sarno, a quem deixou como sucessor, ao retornar  definitivamente a Trecchina, em 1920. Em seguida vieram , o filho Vincenzo Orrico Sarno e os outros sobrinhos:Corinto,Valentino,Camilo,Luigi,Emílio e Rosina Libonati.

A firma cresceu, expandiu-se para Jequié e Salvador. Os irmãos Sarno ficaram sócios até 1965, quando resolveram repartir a firma amigavelmente.

Francisco Pithon Sarno, da terceira  geração, no ramo de ferragens e na tradicional loja da rua Guindaste dos Padres, em Salvador, tornou-se sucessor da Casa Sarno. O centenário se comemora tendo a quarta geração na direção dos negócios.

A Família Sarno, já na quinta geração ,reconhece a aventura e o sacrifício por que passaram os que primeiro emigraram, e agradece a herança que , na concepção deles, era a maior de todas: a educação dos filhos.

Eduardo Sarno

Maio/97

 


ABATE

                                                                                                   Eduardo Sarno- 14.12.02

 

O apelido dele era Abate. Não era alto, nem forte, nem bonito, mas era o líder do nosso grupo de meninos, numa rua chamada da Itália, numa cidade chamada Poções.

Inteligente, bem informado e sempre com um plano na cabeça ele chefiava o nosso grupo. Não tínhamos idade para discutir se a sua liderança era inata ou adquirida, mas confiávamos quando ele organizava uma guerra de badoque, a destruição dos cartazes do cinema ou a matança das galinhas do vizinho.

Era ele quem dirigia as caçadas, quando badocávamos passarinhos  nos matos do sítio de Seu Raimundinho, na barragem em Morrinhos, no açude novo e velho,  pelos lados do hospital, e no sítio de Pirajára, onde havia um grande pé de jabuticaba. Se no inicio usávamos badoques, depois passamos a usar espingarda de socar, daquelas de encher pelo cano. Comprávamos a pólvora e o chumbo na venda de Dahil e de pedaços de corda fazíamos a bucha.

Abate lia muito e nos contava com entusiasmo os mundos que visitava em pensamento e imaginação.

Sabia também nos enganar, como certa vez que enterrou alguns objetos e alegou ter visão de raio X graças a um pó brilhante que tinha jogado no olho. Na dúvida preferimos acreditar.

Ele, como todos nós, sempre gostou da natureza e dos seus bichinhos. Magasapos ( girinos) recolhidos no riacho atrás do quintal que eram postos a ferver em uma lata, besouros com grandes chifres que eram guardados vivos em caixas metálicas bem fechadas, pequenos besouros multicolores colecionados em caixas de fósforos, borboletas que eram espetadas em pedaços de papelão, tanajuras bundudas que eram espetadas em taliscas e passarinhos que eram, evidentemente, badocados.

De quando em vez a sua liderança era questionada, como ocorreu na ocasião em que Luizito Sarno, grande e forte, o desafiou para uma luta. Foi na praça do Obelisco e Abate saiu vencedor.

Certa vez ele pediu-me para entregar uma carta de amor a Rosa Alba, a nossa prima que morava na mesma rua. Dela dizíamos que era tão fofinha que não devia nem ter ossos !

Na saída da Escola Alexandre Porfírio passei na casa de Rosa Alba. Ela estava no quintal, trepada em um pé de manga e eu deixei a carta no chão, indo logo almoçar pois meu pai já iria chegar da loja e era muito pontual à mesa, por exigência de minha mãe.

Já no inicio da tarde o escândalo estava em andamento. Tia  Giusepina Grisi Sarno não gostou da filha ter recebido, uma carta de amor de Abate e, antes de chegar ao autor, passou por mim, já acompanhada de outras tias e minha mãe. Fui interrogado e alegando inocência pedi clemência. A comitiva indignada dirigiu-se a dona Iracema(Sarno) Espinheira, mãe de Abate que, liberalmente tentou acalmar a todos, justificando tudo como “coisas de meninos”. O tempo não guardou os termos da carta, certamente preciosos.

A consideração e o respeito que o próprio pai, Ruy Espinheira, sempre teve por Abate fazia com que ele, aos nossos olhos, fosse tido como uma pessoa sensata, amiga.

A nossa turma ainda existe, cada um é hoje líder de si mesmo e seria difícil imaginar nosso consagrado  poeta, Ruy Alberto Espinheira Filho, o Abate de ontem lutando com Luis Fidelis Sarno, o Luizito, ainda forte mas careca, barba grisalha e aposentado da Odebrecht.

 

 

A  IGREJINHA  VELHA


É assim que chamamos hoje a nossa histórica Igreja Matriz do Divino Espírito Santo dos Poções, invocada já com essa denominação em 1830, quando Thimoteo Gonçalves da Costa doou meia légua de terreno em quadro para se edificar uma capela, cujos trabalhos foram iniciados por José Joaquim dos Santos, genro do Sargento Mor Raymundo Gonçalves da Costa. Foi edificada pelo Capitão Mor João Dias de Miranda em 1842 e finalmente concluída pelo seu sobrinho, o Capitão Antonio Coelho Sampaio.

Segundo registro do Príncipe Maximiliano , que visitou Poções em 1817,antes só existia “uma dúzia de casas e uma capela feita de barro”

Esta igrejinha, sem muita pompa, viu toda a história da nossa cidade, do seu nascimento até hoje. Não é pois, sem razão, o carinho que o povo tem por ela.

Foi ali que sucessivos vigários, padres Amaral, Marinho, Pithon, Carneiro e Honorato – pregaram a palavra de Deus- do modo que eles entendiam, e sem saber se o povo estava entendendo.

 Lá o bispo diocesano Dom Florêncio Vieira crismava os fiéis, as crianças faziam a primeira comunhão, casais se uniam, santas almas partiam ao repique dos sinos, e os pecados cometidos eram ali mesmo confessados e perdoados.

Era lá que Biu , compenetrado, tocava na velha harmônica e as senhorinhas Lurdinha Amaral, Elza, Yayá e Detinha contentes cantavam.

Foi lá que esteve Plínio Salgado com Goffredo da Silva Telles e sua comitiva e era lá que todo ano aquele bom povo se reunia, montado a cavalo, vindo da mata e da catinga, desfilando com as bandeirolas do Divino.

Com o tempo, o pequeno campanário desabou e um improviso foi feito para sustentar o sino. A lateral do lado do coreto onde se rezava a Missa Campal, foi eliminada. E o cruzeiro de madeira, que ficava do lado de fora, bem em frente à porta principal, em cima de um monte redondo cimentado foi transferido para a lateral, num pedestal quadrado.

O pedestal redondo é simbólico. Encimado pela cruz significa a vitória de Cristo sobre as coisas mundanas, os pecados do mundo. Foi esta lembrança que Adilson Santos, poçõense de corpo e alma, imortalizou em uma de suas famosas telas.

Com o tempo a igrejinha precisou de grades para protege-la. É triste precisar  da proteção de grades.

Depois foi a vez da remoção da belíssima pintura da Santíssima Trindade que ficava atrás do altar mor, obra do pintor italiano G.Lupi, oferecida ao Divino por Paulino Braga, em 1905. Esta concepção, muito recorrente na pintura italiana, imprimia no nosso imaginário o Deus–Pai de longas barbas brancas, a Pomba do Espírito Santo, nossa conhecida, e um Cristo que privava a intimidade deles.

Por último, foi a reforma que retirou as lajotas coloniais em forma de losango, que dava o clima de simplicidade e devoção, substituídas por mármore ofuscante e frio.

Chico Sangiovanni, sabedor das coisas de Poções,  já me dizia, quando eu comentei estas mudanças com ele:

“- Vocês vão embora, não ficam aqui e a gente vai fazendo as besteiras como pode.”

Eduardo Sarno

Fev/98

 


CARLOS GERALDO D'ANDREA (SARNO) ESPINHEIRA (Gey)

- Necrológio -

Este espaço é ambíguo: celebra a vida e celebra a morte. Podemos dizer também, que ele é complementar, pois vida e morte, quem há de separar ?

De Poções para o Mundo. Assim Foi a trajetória do meu primo Gey. Primeiro ele procurou entender o mundo, depois procurou transformá-lo. Para prejuízo nosso, ele entendeu o mundo mais do que conseguiu transformar.

Mas a ação social, política e humana de Gey tende a se multiplicar. Seus numerosos alunos são quase como seguidores, pois possuem a mesma chama que alimentava a energia de Gey.

Ele se foi, e ficamos nós sem ele, mas com o mundo que ele tanto curtiu. Era tanto da Academia quanto do Carnaval, tanto do clássico como do popular, tanto do interior como da capital.

Aquele menino que badocava em Poções não se deslumbrou com o mundo, pois ele percebeu desde cedo que o mundo não era as coisas, mas as pessoas. A Sociologia foi para ele o instrumento para entender como as pessoas se relacionam entre si e como se relacionam com as coisas.

Amável, solidário e desprendido, este era o Gey que muitos conheceram e amaram.

Esgrimia um conhecimento sólido e uma inteligência aguda. O argumento, o raciocínio era uma seqüência de dados e conclusões objetivas, ele não era, seguramente, um metafísico.

Gey das caçadas, Gey da Festa do Divino, Gey do Pelourinho, Gey das farras intermináveis pelas ruas e madrugadas de  Oropa, França e Bahia.

A família sempre se orgulhou de suas aparições públicas. Lembro minha filha Vanessa, ainda pequena quando me chamava: "- Papinho, venha ver tio Gey na televisão !"

E lá estava ele, com seus olhos penetrantes e sua imensa barba branca, que acariciava com prazer. E dizia coisas que todos concordavam, pois era um estudioso sério nas suas análises e conclusões.

Gey cidadão soteropolitano, recebendo emocionante e merecida homenagem na Câmara Municipal da cidade que ele tanto se dedicou.

Foi assim o nosso Gey.

Nossas lembranças passam como um turbilhão por Poções, Jequié, a casa de Dr. Ruy, Iracema, a fileira de irmãos, que estão até hoje na fachada da casa na Rua da Itália, em Poções, na forma de pequenos pinheiros.

Convivemos a meninice, a juventude, a maturidade e a imaturidade!

E  tudo gira, tudo roda e o centro deste redemoinho está aqui agora, dizendo para nós: “-  já fui...mas foi a contragosto !”

 PS- Gey é bisneto de Francesco Sarno, primeiro da família que veio para o Brasil)

Eduardo Sarno

17.03.09

11 março 2024


 

                                FIDELIS   DE  TIO  VALENTIM

 O nome é uma homenagem ao avô, Fedele  Sarno, que nasceu e morreu em Mormanno, pequena cidade no sul da Itália, sem nunca ter vindo ao Brasil. Mas para cá vieram os sete filhos, que moravam na Rua da Itália, em Poções, pequena cidade no sudoeste da Bahia.

Ele era o Fidelis de tio Valentim, para não confundir com o Fidelis de tio Vicente, o de tio Luis, o de tio Emilio, o de tio Camilo ou mesmo o José Fidelis de Corinto.

Ao lado da cultura local, interiorana, caatingueira e mateira, bem brasileira, Fidelis herdou também  a convivência com a cultura italiana dos pais. O pai, tio Valentim, calmo e afetuoso, também sócio da Casa Sarno, onde atendia no balcão, se relacionava de maneira alegre com a clientela local. Conta-se que quando o chapéu que vendia ficava folgado  ele colocava a mão na nuca do freguês e fazia ficar “ajustado” !

A mãe, Giusepina, natural de Trecchina,  muito ativa, de uma comunicação fácil e com uma filosofia de vida que ajudou a enfrentar e superar as dificuldades, que não eram poucas, naquele final da década de 30, quando veio à luz o nosso querido Fidelis Geraldo  Sarno.

Naquela época, para dar a notícia aos tios e amigos, costumava-se enviar alguém dizendo:

“- A tia manda avisar que tem mais um criadinho às ordens !”

Foi em Poções que Fidelis teve os primeiros contatos com a cultura popular, e mais especificamente a religiosa, ao acompanhar de perto a festa do Divino Espírito Santo, padroeiro da cidade, tradição herdada dos portugueses que colonizaram a região, do clã de João Gonçalves da Costa.

Além de ver e acompanhar a chegada do Mastro da Bandeira, a Cavalhada, as barraquinhas e o leilão, o Bumba meu Boi, ele também participava da procissão, onde balançava o turíbulo na frente do andor de São Roque, espargindo o incenso.

O andor era carregado pelo pai e pelos tios, e ornamentado com rosas, cravos e gérberas com a ajuda da mãe e tias.

Foi lá também que ele conheceu a projeção de filmes, no cinema de Brás Labanca. Quando o filme quebrava, Nicola Leto, o encarregado da projeção já cortava uma tira a mais, que tinha endereço certo: as mãos de Fidelis Geraldo, que depois projetava em um lençol, com caixas, lentes e lanternas, para os primos e meninos que pagavam alguns réis, no quarto dos fundos da sua casa.

Participou de peças teatrais, no Cine-Teatro Santo Antonio, onde, trajando grossa capa e botas, compunha a cena do Grito do Ipiranga. Só teve uma fala, mas entre a platéia que aplaudia estava o Dr. Fernando Costa, prefeito da cidade.

O caminho natural de todos nós era ir estudar em Salvador, e Fidelis foi um dos que saíram mais rapidamente de Poções, mas ao mesmo tempo nunca saiu de lá. Esta contradição se explica quando sabemos que ele sempre teve Poções em sua mente, em seus sentimentos, em seu trabalho profissional de cineasta..

A partir de então aquele menino começou a crescer, a ver, viver e virar o mundo.

Fidelis, segundo seu próprio depoimento, de início imaginava que cinema só poderia ser feito no glamour de Paris ou Nova York, mas depois descobriu que na caatinga também ocorriam dramas e comédias, e que o povo tinha  cantos e cores,  amores e dores.

Foi ele quem me sugeriu fazer em Poções uma pesquisa sobre o Bumba Meu Boi e o Terno de Reis. Eu ia à noite para o final da Rua de Morrinhos, entrevistar e gravar as cantorias. Os participantes eram  pessoas simples, cujo chefe era o guarda noturno da cidade, um negão alto e simpático ( naquela época não havia afro-descendentes), que fazia circular entre nós uma cachaça gostosa de Ibicuí, para esquentar o frio da madrugada.

Ali eu vi o que Fidelis me apontava: a cultura original, pura, nossa, entranhada no nosso povo.

Ele sempre foi para nós muito avançado, desde quando caçava rolinhas , para o lado de Cachoeirinha, já com espingarda de encher pelo cano, enquanto nós usávamos badoques, até quando viajou para o exterior, e o povo comentava, com voz grave e baixa:

“O filho de seu Valentim foi visitar Cuba !”

Eu, tempos depois em Salvador, já estudando no Maristas e pensando em ir para o Seminário, encontro Fidelis na rua do Forte São Pedro e pergunto à queima roupa:

“- Mas Fidelis, você é comunista?”

Ele me explicou questões sociais e políticas básicas, mas na ocasião eu ainda não estava maduro para entender tudo aquilo. Só anos depois em São Paulo, e depois no Rio de Janeiro, eu já na militância clandestina, na época da ditadura militar, visitava Fidelis e conversávamos longamente. Ele já com uma postura mais moderada e eu mais radical.

Com o Golpe de 64 Fidelis foi para Poções, sob a proteção da família, refugiar-se na fazenda Caititu. Na perseguição, o Exército conseguiu, em plena praça, cercar Fidelis, com metralhadoras ameaçadoras !

Mas, não era este Fidelis, era  o Fidélis de Tio Emilio, o conhecido Fidelão,  alto, sorridente e bonachão !

Com o tempo é que fui entendendo a grandeza e a importância do trabalho cultural que ele desenvolvia, desde o Centro Popular de Cultura – o CPC da UNE, até os filmes e documentários, que mostram de maneira clara e inequívoca um Brasil que precisa ser conhecido para poder ser transformado.

Pessoas como Fidelis não ficam velhos. Os anos  significam que ele convive dentro de si com o menino, o rapaz, e o adulto. Tudo isso se soma e ele nunca perdeu a capacidade de criar, de se entusiasmar e de ensinar.

É este  pois o nosso Fidelis para quem toda a nossa família tem carinho e orgulho e, para alegria geral, sabemos que os sentimentos dele para conosco sempre os mesmos.

Saudades.

 Eduardo Sarno

23 janeiro 2010

Profilo

Studi e Cronache dell' Immigrazione Italiana a Bahia.
Sono nato a Poções - Bahia, di genitori italiani (Sarno- Sangiovanni). Da 30 anni ricerco sulla presenza italiana a Bahia principalmente a Poções e Jequié. Sono immigrati delle due città del Sud Itália, Trecchina (Basilicata, antica Lucania) e Mormanno (Cosenza), composto de imprenditore nel commercio, nella industria, nella agricoltura e servizi, riunendosi nelle due città baiane, costituindo probabilmente un fatto ùnico nella storia dell' immigrazione italiana in Brazile. La iniziativa personale di questo blog é di sensibilizare persona física, giurídica e anche i discendenti che si dispongono e possono dare un sostegno finanziario al nostro "Progetto di Ricerca" , in cui i testi qui giá publicatto sono solo una piccola mostra.
Eduardo Sarno - ricercatore dell' immigrazione italiana a Bahia - edusarno@gmail.com
(I testi e le fotografie sono sulla protezione autoriale- non deveno essere copiati, stampati e editati senza autorizzazione prevista)

31 outubro 2009

A Guerra de Badoque

De um lado estávamos nós, filhos de comerciantes abastados, advogados de renome, gringos italianos e grandes fazendeiros. Èramos os Espinheiras, Sarnos, Lopes e Curvelos. Quase todos morando na Rua da Itália, a principal de Poções.
Do outro lado estava “Bocage” e sua turma: Prexada, Respiço, Buate e Zezim Bocão. Eram chamados moleques, viviam nos arredores da cidade, eram pobres.
Nosso chefe era Ruy Espinheira Filho, por apelido “Abate” e a guerra tinha regras precisas. Os chefes dos dois grupos parlamentavam e decidiam o dia, a hora e o local da batalha.
Então os preparativos começavam. As “balas” para os badoques eram feitas de barro e depois assadas. A quantidade necessária era tanta que havia uma “indústria de guerra”, em que eu, Carlos Sarno e Gey Espinheira, os mais novos, fabricávamos balas para vender.
Eram encomendadas as “capangas”, bolsas de pano à tiracolo, para colocar as balas. Nossas mães costuravam as capangas com muito gosto, mal sabendo para que fins bélicos elas serviriam. Preparava-se os badoques com ganchos de velame (1) bem aprumado,borracha nova bem amarrada, e sempre um a mais, de reserva. O nome “badoque”, que transitou do grego ao árabe, na verdade significou primeiro uma noz e depois a bolinha de barro que era atirada, primitivamente com a besta.
Os preparativos e as barricadas eram feitas nos fundos da casa de Abate, pois esse tinha sido o local escolhido. Ali passava, no verão, um fio de água vindo do açude que, após um poço misterioso, ia dar nos fundos do Prédio Escolar Alexandre Porfírio.
O dia marcado se aproximava e a tensão aumentava. Já não se podia sair sozinho à rua, com receio de uma provocação. E tudo era feito em sigilo, nenhum adulto desconfiava.
No dia e hora combinado lá estava cada grupo no seu lado. Os irmãos Lopes, Kíume e Wesley, no inicio da batalha sempre tinham um plano, uma cilada. Saíam os dois e só reapareciam com a luta terminada, inventando e contando as mil dificuldades que tiveram para colocar em prática a cilada, que nunca dava certo.
Luizito havia levado consigo uma sobra de fogos de São João e resolveu, naquela hora de tensão inicial, com todos a postos, soltar um foguete, que subiu assobiando.
Ainda estávamos surpresos quando Luizito, no mais puro gesto cinematográfico levantou-se, brandiu o braço em direção ao inimigo e gritou: "Atacar !". Imediatamente ele recebeu uma saraivada de balas inimigas e teve de se abrigar. A luta começara.

Sempre lutávamos com bravura, mas só os derrotamos uma vez, quando tivemos a ajuda inesperada de um aliado desconhecido, com uma funda. Tínhamos mais planos, mais idéias e mesmo mais sonhos. Mas eles tinham mais garra e pontaria. As coisas nunca aconteciam como prevíamos. Correndo das balas, aprendíamos que ali as coisas não se passavam como nos filmes que víamos, onde os artistas sempre ganhavam.
E por que não seriam os artistas Bocage e sua turma? Só hoje, tarde demais, me pergunto isso.
As guerras acabaram quando uma bala perdida quebrou a vidraça e acertou o Juiz de Direito da Comarca, o Dr. Eurico Alves Boaventura, dentro do Fórum. Sob o império da lei, recolheram todos os badoques do Município. Era proibido badocar. Para alegria dos pássaros, vidraças e Juizes de Direito.
Não sei ao certo quando levantaram a proibição . Só sei que desde então, até hoje, não badocamos mais.

Teve início então a época das espingardas de encher pelo cano, da caça às rolinhas, dos tiroteios no açude novo, com Gey alvejado por tres chumbinhos no antebraço, que sempre exibia orgulhoso, como um troféu, e as lavadeiras fugindo e gritando desesperadas:
“- Para com isso, “ meninos endiabrados ! ”
Eduardo Sarno

(1) Planta da família das euforbiáceas

20 outubro 2009

Bocce, Boccia, Bocha

Seja com o nome como já era conhecido na antiga Roma, ou como é conhecido na Itália ou no Brasil, este jogo, agradável, simples e adaptado a todas as idades sempre foi praticado onde havia colônias italianas.
A Casa D´Itália tem uma bela quadra de Boccia onde aos domingos os italianos se encontram para uma disputa amistosa.
Em Poções jogava-se a Boccia na praça, mas depois a prática foi se extinguindo e pouca lembrança restou.
No Rio Grande do Sul a prática do jogo sempre esteve presente entre os imigrantes e seus descendentes. (foto)
Para ampliar a prática deste esporte, o Sr. Paolo La Macchia (foto)
está realizando, todas as terças e quintas, às 19 horas, sessões gratuitas de instrução e prática aos interessados.
Contato e informações com a secretaria da Casa D’Itália – (71) 3329-5564.

Almoço na Casa D'Itália

No dia 18 de Outubro de 2009 a Diretoria , tendo como Presidente o Sr. Antonio Belmonte (foto), inaugurou o novo piso de granito do salão da Casa D’Itália. Da confraternização ,com música italiana ao vivo e deliciosa macarronada, participaram diversos sócios, amigos e familiares. (fotos)

16 outubro 2009

Vicente Sarno e Filhos

Vicente Sarno (foto) veio da Itália para o Brasil em 1905, com a idade de 12 anos. Deixou os pais em Mormanno (Cosenza) e foi trabalhar com o tio Francesco Sarno em Poções, interior da Bahia.
Casou-se com Aurelina “Lelinha” Pithon (foto) (*1897 + 1998),
sobrinha do Padre Pithon "Dinho Padre" ( foto), vigário de Poções na época.

O casal teve oito filhos (foto) : da esquerda para a direita: Benito(*1931), Maria (Lourdes)(*1930 + 2009), Manoel (Maneca)(*1925 +1974), Lea (*1932), Aurelina Pithon, Vicente Sarno, Teresa(*1929), Élio (*1927), Francisco (Chico)(*1926 +1986) , Fidélis (*1926).

14 outubro 2009

O Café

Em Poções, no verão, as tardes quentes prenunciavam noites frescas. Na Rua da Itália, o ponto de encontro dos primos, depois do jantar, era a varanda de nossa casa ou a de tio Valentim.
O papo corria solto, com piadas contadas pelo primo Irineu (foto), gargalhadas e comentários os mais diversos. Nós estávamos de férias, todos chegados de Salvador, depois de um ano inteiro de estudos, alguns internos no Salesiano ou Marista.
Invariavelmente meu pai e minha mãe caminhavam pela calçada, e tio Américo e tio Luis às vezes vinham juntar-se a eles.
Quando terminava o passeio meu pai sempre parava para uma prosa com os sobrinhos. Um dedo de prosa, como se dizia.
Uma das vezes o assunto foi o café. Naqueles idos de 1950 o café era um assunto nacional, não só pelo volume de exportação como o fato de grandes quantidades terem sido queimadas, ou jogadas ao mar, para manter o preço. Criticava-se também o fato do Brasil não poder vender café diretamente à União Soviética, e ter de fazê-lo através dos Estados Unidos.
Meu pai explicava pacientemente, e com ar professoral, todos os detalhes do mercado do café, mas a discussão continuava. Ele então pedia um momento, entrava em casa e ia buscar o “dossiê do café”: um classificador onde estavam anotações, recortes e correspondência sobre o mercado do café. Ele então lia os documentos que confirmavam as suas afirmações e todos terminavam convencidos pelos fatos.
A firma Sarno & Irmãos tinha fazenda onde plantava café, e um armazém (foto-1948) onde comercializava o próprio e o adquirido, além de mamona, cacau, peles, etc. Tio Luis e tio Emilio gerenciavam o armazém, e eram “experts” em café, reconhecendo e avaliando os grãos de qualidade para a compra e beneficiamento.


Erotildes e Vitalino eram os “camaradas” de confiança que pegavam no pesado e deixavam tudo arrumado. Eram pilhas enormes de sacas de café e cacau. O transporte era feito no caminhão de Herculano.
Sempre nós íamos lá brincar e quando havia algum saco de cacau furado enchíamos os bolsos com as sementes e em casa conseguíamos fazer um chocolate caseiro, muito gostoso. Anos depois, ao tentar repetir o feito em Itacimirim, só consegui fazer um mingau lilás, logo apelidado de “chocogrude” e rejeitado por todos... menos pelo primo Pietro Sangiovanni, que comeu e achou delicioso !
Fidelão, filho de tio Emilio, e Fernando, filho de tio Luis, tinham uma brincadeira mais sofisticada: brincavam de Zorro em italiano!
No armazém, o cheiro das sacas de café e cacau era inesquecível, e do alto das pilhas ficávamos olhando as “catadeiras” ou "pianistas" (foto), mulheres que, sentadas em grandes bancos catavam os grãos. Erotildes e Vitalino subiam nas compridas mesas e despejavam os grãos, arrastando as sacas.
A firma Sarno vendia para Brandão & Filhos, e para isso tinham de estar em dia com as cotações nacionais e internacionais. Assim, era imprescindível para Corinto ouvir pelo rádio o noticiário do Repórter Esso, e a Rádio Nacional com as últimas novidades do cambio e das cotações.
Na década de 50, na Europa ainda havia as dificuldades do pós-guerra, e minha mãe fazia pequenos sacos de algodão , onde cabia um quilo de café em grão. Nós íamos levar ao Correio para postar para os parentes em Mormanno, na Itália. Quem nos atendia era Zulmerinda Duarte Curvelo, futura sogra de meu irmão José Fidelis.
Os italianos da família Leto, em Jequié, faziam o mesmo, postando para os parentes em Trecchina.
O café era torrado em casa. Meu pai trazia uma seleção dos melhores grãos, e colocava em um cilindro de ferro com uma manivela, para girar. No quintal havia o lugar apropriado para o encaixe do cilindro e o fogo era colocado em baixo. Dali o café já torrado ia para a máquina de moer, também manual, e esta era uma tarefa para nós, meninos.
Bule, chaleira e coador de algodão eram os utensílios usuais que completavam a feitura do café. O bule costumava ficar em cima da chapa quente do fogão a lenha. Por vezes usava-se a cafeteira italiana.
Minha mãe, muito econômica, e achando que o pó era tão bom que se prestava para isso, chegava a fazer café duas vezes com o mesmo pó, para desgosto e protestos de nós, consumidores familiares.
Certa feita meu pai trouxe amostras de café in natura para torrar, moer e coar dentro da melhor técnica, para degustação. Era uma encomenda importante para exportação. Desavisada, ou usando a sua visão econômica, minha mãe misturou com outros grãos... para render !
As visitas tomavam sempre um cafezinho bem passado, servido em bandeja de prata e xícaras finas de fabricação francesa ou japonesa, que ficavam na cristaleira da sala.
Para meu pai – não sei se invenção dele ou dela – minha mãe fazia uma “garapa” de café, gelada, que eu levava no meio da tarde quente para o escritório dele, na Casa Sarno. Ao que parece o meu pai apreciava, porque no dia seguinte a garrafa estava vazia.

Eduardo Sarno
27.07.08

Fedele, o Sarno que não veio

Fedele Sarno (foto) (*1860- +1942), nunca veio ao Brasil, mas mandou 7 dos seus filhos: Vicente (*1893-+1975), Corinto (*1899-+1970), Luis (*1907-+1994), Valentim (*1902-+1990), Emilio (*1904-+1977), Rosina (*1911-+1973) e Camilo (*1909-+1995).
Na foto com a esposa Teresina Minervini (*1870+1940) falta o filho Vicente, que já estava no Brasil, em companhia do tio Francesco Sarno ,em Poções,interior da Bahia.
Esta foto foi tirada por volta de 1915, estimando-se a idade de Rosina, a mais nova, em torno de 4 anos.


Da esquerda para a direita: Luis – Emilio- Corinto – Teresina Minervini - Carmine (falecido precocemente) – Rosina – Fedele Sarno – Camilo – Valentim.
Esta foto certamente foi enviada para Vicente, para que conhecesse os irmãos que haviam nascido depois da sua partida e os que havia deixado bem novos.
Além dos filhos que vieram para a Bahia, dois irmãos de Fedele vieram para o Brasil: Antonio, para Minas Gerais (ver matéria neste blog) e Maria Agnese, para Santos, casada com De Franco.