16 março 2024

 

OS    PALAVRÕES E OS ITALIANOS

 * crônicas poçõenses *

 


          Minha tia Ana Maria Sangiovanni entrou correndo esbaforida em nossa  casa e  foi encontrar minha mãe na cozinha abrindo massa para macarrão, pois era quinta feira:

- Dona Annina, corre que estão xingando Dr. Ruy Espinheira de “bacharel”, pelo alto-falante.

Era Ângelo Neto fazendo suas perorações políticas para o povo da cidade e, sem querer, assustando  dona Ana.

Chegada  em Poções a pouco tempo da Itália, ela ainda não estava familiarizada com todas  palavras, carecendo portanto da explicação que minha mãe lhe deu, que “bacharel” era o mesmo que advogado.

Por acaso ou de propósito estas peças lingüísticas eram sempre pregadas aos recém chegados. Foi o que ocorreu com Antônio Libonati que, tendo sido recebido em Salvador pelos primos Pedro, Élio e Benito, foi almoçar na casa de Vicente Sarno, no Politeama de Cima, 22. Ensinaram para ele que açucareiro em português era “pinico”, e ele não vacilou em pedir ao tio que passasse o “pinico”!...

Mais precavida, tia Lelinha Pithon Sarno , esposa de Tio Vicente, achou por bem avisar logo a tia Ana assim que ela chegou a Salvador : “- Se perguntarem como se chama  “bolsa” em italiano não responda !” A advertência foi oportuna porque assim que conheceu tia Ana, Juracy de Fidélis insistiu para que ela dissesse como se chama “bolsa” em italiano. Minha tia, sob o olhar preocupado de tia Lelinha aprendeu a lição e se recusou a dizer “bolsetta”.

Os nossos tios eram práticos em um palavrão, e o carro-chefe era cazzu , que significa membro viril (Rohlfs), o vulgar caralho ou pica, com a variante  capo de cazzu, ou seja, cabeça de pica. Mas, se nós ousássemos dize-lo levávamos logo um tapa. Eles falavam com tanta naturalidade e freqüência que ficava difícil aceitar que nós também não o pudéssemos fazer.

Mas, contraditoriamente, o ambiente familiar era muito respeitoso e mesmo uma simples  porra  era objeto de recriminação e tapa na boca. Bosta  e merda também nem pensar, aliás, pensar e fazer podia, o crime era dizer.

Segundo uma versão divulgada por Irineu de Valentim Sarno, numa tarde nublada Américo Libonati ia descendo a Rua da Itália e já estava  no meio da praça, indo para a loja de ferragens quando cruzou com José Schettini e, sorridente, comentou :

“Giuseppe, guarda come stai lampando!”( “José, veja como está relampejando!”)

Como o José não estava no seu dia de bom humor, respondeu :

“Lampando sta il culo tuo, cazzu” ( “Relampejando teu cú, caralho.”)

Também era muito usado a expressão fessa,  (besta), com as variantes faccia de fessa ( cara de besta), fessa de mammata  ( besta da mãe) ou  fessa de ziata ( besta da tia) e esses eram ditos por tios e tias. A origem da palavra está no latim “fissus”, no sentido de vontade ou sentimentos divididos.  No dialeto trequinês “fezza, feminino feccia, que significa vulgar, desprezível. No dialeto siciliano “fissa” é o órgão genital feminino, entre outras acepções. A aplicação é lógica, pois tal órgão tem uma fissura, abertura.

Daí se referirem a uma coisa boba como “fessaria

  Quando queriam mandar alguém se danar a expressão usada era  va strafuta , também de uso familiar. Se em geral os xingamentos são difíceis de serem localizadas em suas origens, em italiano é mais complicado, porque são palavras ditas e nunca escritas, sendo que muitas delas derivam do dialeto trequinês ou mormanolo. Assim, por aproximação, temos , do dialeto trequinês,  vastà que significa “chega, basta” e frustafo significando “vá embora”.Segundo Rohlfs, 'strafuná' é distanciar-se, dispersar.O que poderia ser traduzido pelo nosso popular 'se pique'.

 As blasfêmias eram pouco ouvidas, mas a porca  miséria  tinha os seus usuários, e o seu sentido era reclamar da vida. Meu pai tinha predileção pelo uso de “borrabota”, que não chegava propriamente a ser um palavrão, mas a partir do significado de “mau engraxate” designa indivíduo reles, desprezível. Outra expressão que sempre usava era “capadócio”,  que apesar de suas origens greco-latinas, pois se refere a uma província turca da Ásia Menor, não tem em italiano a conotação que recebe em português : indivíduo acanalhado, impostor, trapaceiro, parlapatão.

Capotosta, também do dialeto trequinês,  sempre teve largo uso, e significa  cabeça dura, teimoso, obstinado.  É uma palavra formada de  capo, cabeça  e tosta , obstinada.

Os recém chegados da Itália também usavam o termo “brutto “(feio, desonesto, tolo) para se referir a pessoas  que fossem  indelicadas ou praticassem ações que demonstrassem ausência de sentimento.

“Abestalhado” ou “abestado”  eram formas aceitas para o uso doméstico para designar principalmente os meninos que, no conceito dos adultos, fizessem  alguma  besteira ou “bestagem”, como também era usado. Daí  o uso que meus tios faziam com freqüência do termo “bestalhão” que, na pronúncia deles saia “ bestalhon”.

Minha mãe tinha predileção de chamar minha irmã Noemia de “pamonha", quando ela teimava em ler revistas de foto-novela durante os horários não permitidos. Derivado do tupi  pamu’ñ ã”, significa, além de bolo de milho verde, pessoa mole, preguiçosa.

 Certa vez estávamos na grande mesa da copa almoçando, quando Betânia, uma meninota que tinha vindo da roça para ajudar nos serviços de casa, olhou pela porta lateral que dava para a rua e disse à minha mãe que ali tinha uma “burrega”. Como minha mãe não sabia o que era não deu atenção. Minutos depois, ao passar pela porta ela viu uma cabrita comendo as suas plantas. Aborrecida, chamou Betânia de burrega e mandou que ela tirasse a cabrita de lá. A partir deste dia passou a usar o termo para designar pessoas que ela considerava burras.

Outro neologismo que surgiu em circunstâncias bem definidas foi na ocasião em que algum órgão do Governo providenciou o peixamento do açude local com uma espécie denominada “Tilapia Melanopleura”, cuja grande façanha era se alimentar de detritos lançados às águas. A molecada não deixou por menos e passou a usar o termo “xilaia”  nos seus xingamentos mútuos, com acepção indefinida mas certamente pejorativa.

E assim a cultura do palavrão ia se difundindo e mesclando com as práticas  locais e quando começávamos a ir para a Escola Alexandre Porfírio, estávamos perto de receber o diploma de expressões chulas...e bilíngüe !

Os palavrões mais estranhos eram aqueles que na época não sabíamos o significado, e os principais era “xibungo” , pederasta passivo, e “sacana”, derivado do árabe “açaccó”, que significa  “aguadeiro” e que é usado para designar o canalha, patife, entre outros. Mas, como funcionavam, fazendo com que as pessoas ficassem  retadas, o uso era comum. Mas as palavras “retado”( estar zangado) e “porrêta” (bom, excelente) também não eram usadas socialmente.

Os doidos, quando eram provocados pelos moleques eram catedráticos de palavrão. A principal resposta, evidentemente, era que o apelido dele eqüivalia à “buceta”da mãe de quem o chamava. Mas isso não intimidava os moleques, que queriam ouvir mais. E lá vinha “filho da puta”, que na verdade saia com variantes por causa da pronúncia: “fi da puta” ou “féla da puta”, pois a pressa e a ignorância não permite classicismo.

 Para nós a novidade era que também as doidas sabiam um bom repertório de palavrões e era muito mais emocionante ouvi-las gritar “vá tomar no cú, seus safados”, do que os doidos.

Nas paredes da Escola o que mais se escrevia era “pica” e “buceta”, às vezes com ilustrações adequadas ao texto. “Xibiu”, que nos garimpos mineiros significa diamante pequeno, em Poções era sinônimo de “buceta”, que era representada por um triângulo. O mesmo acontecia com a palavra “binga”, que em lugares mais discretos significa isqueiro, mas aqui é “pênis” mesmo, e chamar alguém de “tampa de binga”  deixava claro, de forma criativa, o significado.

Uma outra expressão que também se adiantava numa explicação mais completa era “filho de puta com soldado raso, ofendendo os brios das Forças Armadas.

Às vezes ainda não tínhamos nem a percepção exata do significado do palavrão, mas a ênfase com que era dito já bastava para motivar uma briga. Era o caso de “viado”, (com “i”)  cuja compreensão não era completa para todos nós.

Xingar-nos mutuamente de “corno” não fazia o menor sentido, mas, apesar disso era usado. Os mais sabidos já faziam uma ligação direta com os pais da pessoa a ser ofendida, tornando o sentido mais lógico.

“Vai te fuder”, ou “estou fudido” era de um caráter tão dúbio que nos confundia. Já compreendíamos que “fuder” era uma coisa boa, e como se podia querer mal a alguém mandando ele se “fuder” ? Como poderia alguém se “fuder” sozinho? E por que estar “fudido” era estar em uma situação ruim?

Alguém tinha dito que “porra” significava esperma, e não fazia sentido para nós que alguém gritasse “esperma” quando estivesse zangado.

As garotas, em absoluto não se permitiam dizer a mais simples “porra”, e quando ouviam dos meninos alguns palavrões diziam “- Queta, ozado” e no recinto sagrado do lar a chamada boca suja era lavada no tapa. Restava, progressivamente, a escola, a rua e o bordel. Vitalina, dona da casa de raparigas  mais freqüentada tinha uma fala rendilhada de palavrões.

Mesmo com a circulação nos bordéis não havia novos palavrões. O rádio não se prestava para isso e a televisão não existia. Só com a ida das primeiras levas de ginasianos, para Jequié, no Colégio do padre Spínola – aquele que pegava nos peitinhos das alunas fardadas dizendo: “-Escudinho novo, hem ?” ou para Salvador, no Vieira, Salesiano e Maristas é que os horizontes lingüisticos se ampliavam. Já se sabiam de nomes eruditos como “baitola, pederasta” ou “homossexual”. Até de “franchona” já se comentava, sem falar no “sessenta e nove”, mas aí já é uma outra história, da prática e não da fala. Ou da prática do falo.

Foi justamente em Jequié, em 1957, quando Pietro Pasquale Sangiovanni, o conhecido Pepone foi fazer o exame de admissão que lhe perguntaram se ele já sabia  bater punheta”. Inocente, respondeu que não e então lhe ensinaram  um movimento de destreza com os dedos indicadores e polegares alternando-se, num movimento sem fim,  e disseram que isso era bater punheta. Na sala de aula, depois de feita a prova, contente, Pepone querendo se enturmar perguntou ao professor se ele já sabia bater punheta. Sem perceber o olhar de incredulidade do professor ele, movimentando os referidos dedos disse sorrindo: “- Eu já aprendi, professor, olhe só!”

Eduardo Sarno

Outubro.98

 

OS  SAPATOS

* crônicas poçõenses *

 Para nós, crianças e filhos de italianos em Poções, a lembrança do calçado usual  era a alpercata, de sola de pneu, tiras de couro e pequena fivela lateral. De fabricação local, era bastante resistente e deixava nos pés as marcas do uso, em forma de  sujeira, nas partes da pele onde as tiras de couro não cobriam.

Quando se  começava a freqüentar a Escola Alexandre Porfírio , então o uso era de um sapato fechado, preto, de cadarço, e a marca mais comum era Clark, e a Vulcabrás também era muito apreciada. Havia um modelo da Clark, vendido na Loja Sarno, dos meus tios, que era o “Scattamaccio”. Este nome me dava a idéia de algo parecido com um tanque de guerra. Na verdade, soube depois, quer dizer algo como saltador, leve, como se o sapato fosse de molas !

Também destas marcas eram os sapatos usados pelos nossos tios. A cor predominante era sempre o preto, e todos eles de cadarço. Muito raro os marrons e mais raro ainda os que combinavam o marrom com branco. Estes foram usados em décadas passadas, anteriores a 1950, e nós conhecíamos pelas fotografias.

No inverno os sapatos eram protegidos por galochas, que eram moldes de borracha fina, que se calçava por cima dos sapatos, tornando-os impermeáveis.

 Mas os pés brancos dos nossos tios nunca víamos. Mesmo em casa eles usavam um chinelo que cobria a parte posterior do pé, só se vislumbrando o calcanhar. Os mais acomodados usavam um sapato velho, amassado na parte de trás, como se fossem  chinelas.

Esta não visão dos pés e a excessiva proteção contrastava com os pés sempre à mostra da maioria do povo pobre da cidade , da caatinga e da mata. Eles usavam sempre uma chinela de couro, tipo mete dedo. E lá estavam aqueles pés calejados, rachados, andados.

Aos sábados, dia de feira, lá vinham eles. Os catingueiros ou mateiros mais ricos, ou ligados ao trato do gado usavam botas de couro cru, de fabricação regional.

Para ir até à fazenda , fazer uso das montarias, ou ir à caça,  meus tios usavam coturnos e borzeguins. Eram botas assemelhadas, de couro, bem amarradas na frente, com o cadarço se entrelaçando. Uma delas tinha uma grande perneira, independente do coturno, que se amarrava em separado.

O coturno trás o seu nome do grego, significando um calçado usado pelas mulheres. Também os atores trágicos os usavam, para se tornarem mais altos. Ainda é usual a expressão “fulano é de alto coturno” para significar alguém socialmente importante .

O borzeguim, por seu lado, tira o seu nome do antigo francês broissequin , e ao que consta usado por atores da comédia.

Para minha primeira comunhão ganhei um sapato fino, preto, de verniz. Bonito, brilhante, mas não resistiu a mais alguns domingos: o verniz era quebradiço e não havia como recuperar. Mas  não era comum esta cor para esta ocasião,  a usual era branca, combinando com o terno.

Anexo aos sapatos estavam os apetrechos para limpeza, que eram as pastas preta e marrom, a escova e a flanela. Ocasionalmente os adultos e adolescentes engraxavam na rua, sentados comodamente nas cadeiras dos engraxates. Mas como eram muitos sapatos e o uso era mantê-los limpos e brilhantes, aos sábados normalmente fazíamos esta tarefa em casa. Outro complemento indispensável era a calçadeira, de metal ou de chifre de boi. A solidez dos sapatos e o cadarço apertado não permitiam uma entrada do pé sem uma ajuda. Também a meia era indispensável, e ocasionalmente o talco.

Por ser todo em couro o sapato tinha durabilidade e as partes podiam ser substituídas. Para esta tarefa artesanal havia os bons sapateiros no Beco dos Artistas, perto da Loja Sarno. O mais comum era fazer a meia-sola e trocar o salto, masculino, ou capa-fixa, feminino. Para evitar o desgaste excessivo do salto alguns usavam pequenas chapas de metal nos lugares onde o atrito do salto era maior.

Daí a expressão usual de “fazer meia-sola” , ou seja, fazer algo voluntariamente  pela metade.

Andar de pés descalços era impensável. Temia-se os bichos e vermes de toda espécie. E o famoso bicho-do-pé  não era uma invenção, existia de verdade, e dava uma coceirinha gostosa e traiçoeira. A frieira também era uma possibilidade próxima que evitávamos, ao não pisar no molhado.

A partir da década de 50 foi surgindo uma grande variedade de calçados esportivos. Um dos primeiros foi a conga, (a marca se confunde com o objeto) de solado de corda e corpo de lona. A corda acumulava o suor, que combatíamos com o talco e no final o calçado ficava todo enlameado por dentro. A alternativa era lavar.

 Com este modelo já se iniciava o sistema use e jogue fora, porque não havia recuperação. A marca em voga era “Alpargatas”. Em seguida veio a conga de solado de plástico e também a basqueteira, de cano mais alto e cadarço, adaptado para esporte. Por esta época surgem também os sapatos esportes sem cadarço, “mocassins” , normalmente marrons, o que vem aliviar os nossos pés.

Os tios continuavam com os calçados tradicionais, e só os primos aderiam a estas novidades. Mas quando chegou a sandália japonesa, o meu primo Fidelão, de tio Emilio, espantou a todos exibindo os grandes pés brancos pùblicamente!

Os sapatos femininos, com  suas variações próprias seguiam estas mudanças. As tias mais idosas mantinham a tradição do sapato preto fechado, com salto, e as mais novas usavam  sapatos de salto, alguns com cores, e uma pequena abertura na frente. As adolescentes usavam também sandálias fechadas de couro e, as mais novas, sapato tipo “boneca”. Na sequencia é que foram surgindo as sandálias de couro tipo mete-dedo, com várias ornamentações. Minha irmã Aurora foi quem primeiro usou em Poções, para espanto de umas e encanto de outras.

 



Eduardo Sarno

Nov/ 03

 

OS  DOIDOS

* crônicas poçõenses *

 


Eles estavam nas ruas e nas nossas cabeças. Quando ouvíamos a molecada gritar: “Ôôô Três Casaco !!!” corríamos para ver. Lá estava ele, barbudo ,já de uma certa idade, carregando um saco cheio de coisas, correndo atrás dos moleques e jogando pedras. Ele costumava ficar na porta da casa do dr. Agripino Borges e chegou a dar um tapa em Adilson Santos. Era dos brabos. Mas tinha também os mansos: Isaulino era um deles. Magro, segurando as calças sujas para não cair, andava, ciscava com uma perna, catava um bago de cigarro no chão, dava uma corridinha, parava e ficava falando só. Quando o chamavam, resmungava e mal levantava a cabeça.

Para nós, atentar os doidos era um misto de brincadeira ingrata e perigosa. Não nos deixava satisfeitos. Havia ali algo que nosso entendimento infantil não alcançava. O máximo que ouvíamos os adultos comentarem eram sentimentos de pena: “coitados !!!”. Mas isso não era suficiente. Ficávamos a pensar de onde eles vinham, porque se tornaram assim e o que eram, finalmente. Às vezes alguém comentava que um doido havia sido um homem rico, fazendeiro ou negociante, ou que uma doida teria sido uma mulher muito bonita, que esteve quase noiva. Sentíamos o peso da fatalidade como o de uma rocha caindo em cima de uma formiga, pois ali estava o pobre coitado, na rua, sem absolutamente nada. O contraste conosco era total. Tínhamos de tudo e a comparação a que éramos submetidos quando víamos um doido era muito forte.

Joaninha, a empregada lá de casa, assim certamente como todas as outras de Poções, não perdia a oportunidade de recorrer às ameaças de chamar um doido para nos pegar em caso de desobediência ou malcriação. Os preferidos eram Buqueirão, um mulato barbudo, maltrapilho, feroz e que jogava pedra, e o outro era Medonho, olhos remelentos e uma cabeça enorme, que ele batia contra a parede.

A nossa ignorância fazia com que ficássemos aterrorizados, imaginando a obediência daqueles doidos aos desejos das empregadas, a vinda deles fisicamente durante o dia e metafisicamente durante o sono, nos atormentando.

Mas, com alguns doidos havia uma certa convivência ou aproximação. Lope, por exemplo, doido manso, contava as estrelas e quando errava recomeçava. Ao nos ver pedia “torresmim” para comer. Maria Putuquinha tinha até um trabalho, botava água de ganho nas casas, pois não existia ainda a água encanada de Morrinhos. Já com o Carrim, que era cego, a malvadeza da molecada era orientar erradamente e fazer ele tropeçar ou cair em um buraco. Quando davam comida para ele e não tinha carne, perguntava: “-Ô Sá Jô cadê a mastigadura ?” Quando a molecada deu um pau sujo de bosta para ele pegar acusou logo: tem um cagado por aqui !.

Os doidos tinham oscilações de humor e comportamento, e dizia-se que a lua cheia tinha a ver com isso. Gatinha era pequena, branquela, e quando braba deu um murro na barriga de Vone Macedo, que estava na porta da farmácia de Olimpio Rolim. Contudo, os filhos de comadre Dozinha Fagundes podiam xingar de Gatinha que ele não se incomodava. Pedia pedaços de sabão nas casas e suspendia a saia, para alegria da molecada.

Já Pêga, negra gorda, feia e suja, era sempre braba. O povo raspava a cabeça dela por causa dos piolhos.

Havia os que, se não eram doidos eram tipos estranhos. Zupero era um deles. Índio, caboclo das matas, onde morava, não saia de dia e só a noitinha é que passava nas casas. Lenço amarrado na cabeça, bermuda desfiada, brincos e colares Zupero trazia para a nossa curiosidade um novo elemento: o efeminado. Cantava versos do terno de Reis: “Ai  duri duri ai, ai ai duri duri ai”,   e dizia que na Sexta Feira Santa passava por dentro de um espelho.

O outro tipo estranho era Mazinho, filho de Dona Massú, que era lavadeira e fazia acarajé. O pai era seu Hermenegildo, guarda noturno, que o povo chamava de “Miligildo” e tinha um Reis de Boi onde, certa ocasião, pregou um rabo de verdade no “boi” que fedeu tanto que o povo não quis receber o Reis nas casas. Negro, alto, de andar rebolado, Mazinho era o outro efeminado que nos intrigava. Não sabíamos nem porque nem para que servia um efeminado. Achávamos que era só mania de querer imitar as mulheres.

Poções sempre foi pequeno e com três passadas os doidos iam da Rua da Itália à Rua São José e assim conheciam e eram conhecidos de toda a cidade que, tirante a molecada, não os hostilizava. Mas tinha um que só fazia ponto na Praça Coronel Magalhães. Era Jipe. Na verdade era um andarilho que saia de Jequié e ia até Conquista, pela Rio- Bahia, sem asfalto na época. Trazia pendurado no pescoço um volante e a tiracolo as buzinas e os faróis. Amarrado atrás um bagageiro pequeno, com os pertences de viagem. Os sapatos eram os pneus e as pessoas que o cercavam para ver a novidade davam dinheiro, que era para comprar a “gasolina”: café com leite e pão no Bar do João Liguori.

 São lembranças de seres provisórios, sem passado e sem futuro, que só serviram para povoar a nossa imaginação. Eles ficaram no passado, mas nós mantemos incrustados em algum lugar das nossas mentes aqueles olhares perdidos que olhavam mas não viam , os olhares dos doidos de Poções.

Eduardo Sarno

Jul/97

 

O PADRE HONORATO  NASCIMENTO  DE  ANDRADE 

* crônicas poçõenses *

 É uma dessas personagens que petrifica e incrusta-se na historia das pessoas e dos lugares. Magro, gestos rápidos, nariz afilado e sempre com uma batina preta puída na gola e nos punhos. Cobrindo a tonsura o permanente barrete. Dele diz-se mais coisa do que ele realmente é. Surdo, tem o privilégio de só responder às perguntas que lhe interessam. Aumenta e abaixa o volume dos fones auriculares através de um controle que traz no peito, em um bolso interno da batina. Natural de Jaguaquara, raramente era visitado pelos parentes.

Dizem que ele fala com a voz meio forçada, encostando a ponta da língua no céu da boca e arrastando os “erres” para poder imitar o sotaque dos italianos, de quem muito gostava.

Dizem que ele só começa a missa quando seu Corinto Sarno chega. Outros explicam que, como seu Corinto é pontual, a hora que ele chega é o sinal certo para o Padre  iniciar a Missa.

Dizem que tem uma fazenda na Mata que vale milhões, mas que é muito sovina e faz questão de não falar dela.

Dizem que gosta muito de beber, quando lhe oferecem um guaraná, pergunta discretamente, entortando a boca, se não tem um uísquizinho.

Dizem que é esnobe e refinado, e que gosta de ter em casa  do bom e do melhor, principalmente mobiliário e roupas de cama e mesa.

Dizem que é muito vaidoso e que  tudo fez para ter o título de Monsenhor, do qual faz questão de usar tudo que tem direito: meias carmins, cinta vermelha, apliques nos botões e penacho vermelho no barrete. Recebeu o título por ocasião das suas bodas de prata de ordenação sacerdotal, no pontificado de João XXIII.

Dizem que não tem muito senso pratico. Quando teve um Jeep e estava aprendendo a dirigir no campo de aviação, o instrutor mandou que pisasse no freio.  Ele abaixando-se apontou para o pedal e perguntou:-  É este?  O carro só foi parar no meio dos pés de guabiraba.

Dizem que é muito usurário e comodista e que quando aparece um hospede para sua casa pede para alguém levar para  a casa de Seu Corinto.

A verdade é que,  apesar do padre Honorato, a comunidade poçõense conseguiu manter a fé.

Na sua prática, assistia aos pobres, fazia a desobriga pelas matas e caatingas e sempre se juntou aos poderosos do lugar, que nunca se negaram a fazer o que ele solicitava. Aos moleques e crianças que encontrava, nunca deixou de puxar as orelhas e apertar as bochechas. Quando era filha de algum conhecido, além da bochechada dizia, com sua pronúncia peculiar: “Olha a menina bonita de Leto. Como está seu pai?” E seguia adiante sem esperar resposta, porque não ouvia mesmo.

Alguns acreditam que nem ele mesmo entendia os seus longos sermões, monótonos e repetitivos. E o latim que ele lia, rápido demais, não correspondia ao que estava escrito.

E mais coisas se dizem do venerando Monsenhor. Mas isto não conto eu, que o faça os rapazes do Tiro de Guerra.

Houve um movimento modernista para depor o padre Honorato. Conseguiram. Mas não sei se foram justos. Afinal, mesmo anacrônico ele era um patrimônio local e se a comunidade avançou deveria tê-lo assimilado e não  afastado.

Hoje o Monsenhor é falecido. Se subiu aos Céus e está sentado à direita de Deus Todo Poderoso o fez no dia da Festa do Divino Espirito Santo, padroeiro de Poções, de quem sempre foi um pregador fiel.

 Eduardo Sarno

Jun/97


 

O OBELISCO

* crônicas poçõenses *

 A nossa geração tem esta marca indelével de apego sentimental à cidadezinha do interior que albergou nossa infância e juventude.

Lembramos o nosso saudoso obelisco, de base hexagonal,


que afinava à medida que subia, construído por Paulo Barbosa do Amaral e  inaugurado a 10 de novembro de 1941, na Praça da Bandeira, na gestão do Dr. Peixoto.

O conjunto do obelisco era composto de quatro postes com luminárias e quatro bancos de granito, sem encosto, com um largo passeio em volta. Na praça, as casuarinas ,plantas originárias da Austrália, lembrando árvores de Natal simétricas, lindas no seu verde fosco, contrapondo com o céu azul e as nuvens multiformes e alvas. Seus raminhos verdes cilíndricos, que substituem as folhas, divididos em pequenas secções, serviam para uma brincadeira inocente: partido em dois, e depois perfeitamente encaixado, tratava-se de adivinhar qual o gomo que havia sido secionado.

Velhuscas, nodosas, as casuarinas ainda estão lá. Quando passamos perto o som do vento nos galhos parece dizer: “ - Olha quem está aí  ! lembram daquele menino ?”

Quem não está mais é o obelisco. Ferrugem ? descaso ? mas era um obelisco importante. Além das casuarinas  ele era cercado pela casa de Luis Sarno, onde antes funcionou o Dopolavoro Umberto Maddalena, a Igreja dos Crentes (como a chamávamos), do pastor Alcides “Batatinha” (como o chamávamos), a Escola Alexandre Porfírio, a casa de Argemiro Pinheiro, a dos Mascarenhas, a de Juvenal Oliveira, a de Ioiô Macedo, a de Brás Labanca, pela antiga sede do Clube Social, a de Dr. Trindade, a casa de Américo Libonati e a da Escola da Cooperativa da professora Lusmar e pela atual Prefeitura, que já foi clube e jardim de infância, onde cursei.

Era lá no obelisco , nos seus degrauzinhos, que as crianças sentavam em grupo para tirar fotos, que nas tardes de domingo Antonio Leto passeava com Dalva e suas futuras cunhadas Dolores e Alina, que Félix Magalhães e Maita Curvelo, namorados, pensavam que tinham por única testemunha dos seus amores o solitário obelisco, sem saber que a meninada olhava tudo de longe.

Era lá que o Dr. Fernando Costa realizava os atos cívicos, quando da sua gestão na Prefeitura, perfilando a Filarmônica  de Mestre Nadinho e o Tiro de Guerra. Era no obelisco que, na hora do “baba” sentavam os que não estavam jogando.

Nele , no tempo de Getúlio Vargas,  eram colados os cartazes convocando os reservistas para defender a Pátria e o povo para aprender o ABC. Era lá que acontecia tanta coisa que eu nem sei contar...

Com o tempo o obelisco ficou esclerosado, descamado, feio e ninguém cuidou dele. Parecia que diziam: “-Cai logo, peste !” Mas ele não caiu, foi demolido.

No seu lugar foi construído um lindo jardim florido e bem cuidado.

Sem desmerecer as flores acho que jogamos fora um obelisco cheinho de lembranças e emoções.

 Eduardo Sarno

Fev/98

15 março 2024

 

A  BARBA

* crônicas poçõenses *

 Meu pai tinha uma caixa de madeira, onde ele guardava os apetrechos para fazer a barba. Era na pia da ampla copa, na nossa casa em Poções, que ele se barbeava. A caixa era colocada sobre a mesa, de onde ele tirava o pincel, um pequeno vasilhame de metal, e o pote com a loção Bozzano, para a espuma. Branca e consistente, a espuma era feita no vasilhame e espalhada no rosto. Por vezes, nas férias, as netas pequenas se assustavam, mas depois se acostumavam. Meu pai sempre fazia uma careta para elas.

A navalha era de aço alemão, Solingen, da cidade do mesmo nome. Era amolada, meticulosamente, em um pedaço de madeira macia, com o uso de fino pó de esmeril. Com gestos firmes e precisos, meu pai passava a navalha no rosto, raspando e escanhoando a barba. Fazia movimentos com o queixo, para adaptar melhor a lâmina  à ação.

Depois de lavar o rosto, enxaguava com água velva Bozzano. O perfume e o frescor eram sentidos de longe.

Depois todos os objetos eram limpos e guardados, e a caixa fechada. Meu pai sentia prazer neste ritual meticuloso , que lhe deixava renovado.

Tempos depois descobri que, não só ele, mas outros italianos, como Brás Labanca, possuíam caixas iguais.

Naquela época, década de 50, não se usava barba. No máximo, um bigode. Na nossa família o comum era não ter nem bigode. Como rito de iniciação da puberdade, fazer a barba era um ato de afirmação masculina.

Meu primeiro barbeador foi de metal. A parte frontal se abria, para que a lâmina de barbear fosse colocada. Lâmina que, evidentemente, era chamada de "gilete" , em uma simbiose de inventor, fabricante e produto. Da nossa geração, ninguém se aventurou a manipular uma navalha. Eventualmente alguns tiveram o prazer de uma barba a navalha, mas só no seu Hermes, o barbeiro.

Certa ocasião surgiu um amolador de "gilete", muito eficiente. Era uma pequena caixa plástica, onde se colocava a lâmina, e fazia-se um movimento de ir e vir, com um cordão adaptado à caixinha.

Anos depois, devido a circunstâncias, eu tinha a lâmina, mas não tinha o aparelho. Adaptei então um toco de lápis, que prendia a lâmina, e passei a fazer uso frequente deste improvisado aparelho.

Quando surgiu o aparelho com duas lâminas - tchan , tchan, tchan - eu achei que seria prático o seu uso, mas logo me decepcionei : as duas lâminas serviam para entupir , com a espuma e os pelos da barba.

Não cheguei nem a experimentar os aparelhos de barbear mais caros e sofisticados. Voltei fielmente ao meu velho e funcional sistema de lâmina e toco de lápis !

Eduardo Sarno

Set/201


9

14 março 2024

 

OS  LAMBANCEIROS

- crônicas poçõenses -

 Havia sempre um moleque manioso em Poções procurando lambança. Cada um tinha sua turma e todo dia procurava-se uma novidade para brincar, seja depois das aulas, durante o ano ou o dia todo durante as férias.

 João Batatinha, Zoma, Adilson Fagundes, Antonio Napoli, Dau Cachimbo de Pau, Raimilson e Ozail Gusmão, andavam em bando nas obras para a construção do açude novo, e ficaram impressionados quando viram o tamanho das rodas das máquinas. A esteira do trator hipnotizava a todos. Quando um dos tratores caiu dentro do açude foi um corre corre da meninada para saber o que aconteceu: morreu o tratorista ou foi salvo por um mergulhador ? a noticia se espalhava e aquela gente curiosa ia ver a novidade.

Do paredão da barragem do açude, a molecada descia correndo destrambelhada, sem pensar nos perigos. E no meio das baronesas disputavam para ver quem mergulhava mais fundo e só pararam quando alguém disse que havia visto a cara de “Quatro Olhos”, que havia morrido afogado. Nem a cuia com a vela acesa que foi colocada sobre as águas achou o corpo.

Abaixo do açude novo ficava o açude velho, que já não dava mais conta. O grande paredão de pedras estava rachado e já havia sido coberto pelas águas várias vezes, ameaçando inundar a cidade. Nestas ocasiões era a sirene do Cine Glória que alertava a população, de dia ou de noite. Meu pai costumava me levar lá para passear , aos domingos, e eu ficava impressionado e temeroso com aquelas águas de um  azul-escuro, com as baronesas boiando, mas a mão do meu pai era minha segurança.

 Mais abaixo do açude velho havia uma grande cisterna, que nos metia medo, profunda e com grandes sapos mortos  lá dentro.  E, já perto da rua, uma enorme gameleira onde se dizia que havia tesouros enterrados, junto ao seu tronco. Eram talvez lendas do tempo dos Gonçalves da Costa quando da exploração de ouro ou da época dos jagunços, que escondiam munições. Alta e esgalhada a imponente e solitária gameleira não dizia que sim nem que não.

Era lá na cisterna que as empregadas iam buscar areia fina para arear as panelas de alumínio. Também era lá que se brincava de seriados, com capas e espadas ,convencionando que o perigo dito  “do meio” era o mais terrível !

 O açude novo também serviu mais tarde de palco para guerras com espingardas de socar, com um grupo de cada lado e as lavadeiras no meio gritando: “- Pára, meninos endiabrados, pára !”

Os caroços de chumbo no antebraço de Gey Espinheira, até hoje, não me deixam mentir.

Com a chegada do circo, os lambanceiros não saiam da praça, e tudo era motivo de euforia redobrada. Todos queriam saber se tinha animais amestrados, qual o nome do palhaço e o horário da função. Acompanhado pela algazarra dos moleques lá se ia o palhaço da perna de pau anunciando o circo pela cidade:

“- E viva o sol e viva a lua

Olha o palhaço no meio da rua !”

À noite, apesar da vigilância do mata-cachorro, havia sempre uma treita para entrar por baixo da lona, e subir nas arquibancadas para ver o espetáculo. No intervalo as artistas iam para a arquibancada vender um monóculo com a foto colorida da trapezista.

Certa vez uma delas, muito bonita, apaixonou-se por Carlos Ney, que era um dos rapazes mais charmosos de Poções. Nós todos torcíamos para que aquele amor impossível desse certo. Ele dedicava anonimamente músicas românticas para ela, no serviço de alto falante da cidade. Este serviço pertencia à  Prefeitura e depois passou para Tonhe Luz, divulgando notícias e músicas em todo o comércio.

Carlos Ney e a trapezista encontravam-se às escondidas da família e do dono do circo. Um dia o circo foi embora, levando a bela trapezista e o seu destino.

 Mas a cada Festa do Divino grandes novidades chegavam, entre elas o parque de diversões. E os moleques de calça curta, suspensórios e alpercatas de pneu arregalavam os olhos quando giravam na roda gigante colorida, ondulavam no carrossel mambembe, ou balançavam nos barcos que eram empurrados à mão.

A chegada eventual de acampamentos ciganos e as feiras aos sábados, mantinham os lambanceiros ocupados. Um se aproximava da pilha de melancias e furava uma delas. O outro então procurava o dono das melancias e dizia “- Seu home, me dá essa que ta furada...” e lá se iam rindo do coitado e chupando a melancia. Depois pegavam um cavalo que estava amarrado, davam uma volta com ele e quando o dono aparecia diziam “- Seu moço, olha o seu cavalo que nós apanhamos aculá e viemos procurar o dono ...”.

Naquele tempo faltava tempo para se fazer tudo que se inventava...

 

                                        João Batatinha

Ainda hoje, da porta de sua tipografia, João Batatinha jura que já viu o pintor Adilson Santos, como nas visões de seus quadros surrealistas, cercado de pombas, andando pelo fundo de quintal com a noiva da cidade.

Eduardo Sarno

Jan/98

 

O BECO LÁ DE CASA (2)

- crônicas poçõenses -

 Imprensado entre minha casa e o Cine Glória, nosso  beco era  muito freqüentado. Ali ficava também o escritório de Brás Labanca.

 Baixo, forte e simpático, este italiano dono da Empresa de Luz Elétrica Pública e Particular de Poções, nunca se negava a nos dar uma “nica” (níquel) quando pedíamos. Foi com tristeza e curiosidade que assistimos à derrubada da parede da usina que dava para o beco, para que técnicos paulistas pudessem tirar  a enorme polia avariada, silenciando o gerador diesel. Uma peça nova viria do Sul, disseram. Nunca chegou.

No nosso portão, que dava para o beco, tinha umas argolas no muro que servia para amarrar os jumentos dos aguadeiros. Cangalha de quatro corotes,ou "carotes" como se dizia em Poções, lá se iam e lá vinham, trazendo aquela água cristalina e saborosa, a água de Cachoeirinha.

 No inicio do beco, os três pequenos buracos no chão, enfileirados como as Três Marias que víamos no céu, eram do tamanho de um punho fechado, e era ali que a gente brincava de bola de gude, nas tardes intermináveis. Para ganhar, tínhamos de conquistar os três buracos na seqüência, e afastando as bolas dos adversários. Às vezes, com rolimãs de aço, tentávamos quebrar as bolas de gude dos outros meninos. Era admirado quem fosse maneiroso para segurar as bolas de gude, ter boa pontaria e força.

Ninguém sabia como e nem porque, e de repente estávamos todos mudando de jogo, às vezes no mesmo período de férias. Quando era época de pião, os buracos de gude ficavam abandonados e o bamba era quem  colocava o pião na unha para rodar, e o super bamba era quem pegava ele no ar, na unha! Os menos destros ficavam maravilhados e algumas vezes se machucavam na tentativa de imitar. No circulo riscado no chão o pião de ponta de aço rachava os outros no meio. Para não perder o bom pião, valia trocar por um mais ordinário, na hora de levar a porrada.

Passado o tempo do pião, agora eram duplas batendo tampinhas de refrigerante desamassadas nas paredes do beco. Eram as “fichas” . Ganhava quem rebatesse mais perto da ficha do adversário. Apostava-se carteira de cigarros vazia. O “Astória” valia menos, “Continental” um pouco mais, e " Roliude” já era  um valor razoável.

 Cada garoto tinha no bolso o seu maço de carteiras bem alisadas e classificadas, e quando  chegavam fumantes de fora íamos ver se não trazia “Marlboro”: valia três “Roliude”! O maço podia aumentar se fossemos para a rua procurar carteiras vazias, ou diminuir se perdêssemos na ficha.

O papel colado ao alumínio que envolvia os cigarros era cuidadosamente dissolvido na água e a fina  película de alumínio que ficava, era utilizada para formar enormes e pesadas bolas, as maiores chegando a ter vinte centímetros de diâmetro! Era uma espécie de troféu.

Passou a época das fichas, agora o que vale é “triangulo”. Cada garoto já carrega o seu canivete ou estilete. Procura-se uma boa parte do beco em que o chão seja mais consistente, desenham-se dois triângulos, e um tenta cercar o outro traçando linhas a partir do ponto onde se fincou o estilete, no arremesso. Se este não fincar, perde-se a vez. A grande destreza era fazer o canivete rodopiar no ar antes de fincar no chão. Iniciava o jogo quem fincasse mais próximo de uma linha traçada no chão.

Já esquecemos o triangulo, agora é tempo de “setas” : um prego afiado, três ou mais penas de galináceo e cera de abelha para dar  peso e segurar o prego nas penas.

E lá se vão todos procurando portas e janelas no beco para treinar a pontaria e disputar pontos nos alvos.

Talisca de bambu, cola, papel de seda e linha Urso número zero. Chegou a época de empinar papagaios e arraias. Pequenas, grandes, coloridas e longos rabos de retalhos de pano. Algumas tinham linhas “temperadas” com pó de vidro e goma arábica, para cortar mais fácil a linha dos outros. Quando isso acontecia, era a festa para a molecada, que saía correndo atrás da arraia que caía.

Até o Dr. Ruy Espinheira fez um “Couro de Boi” que maior nunca se viu, todos paravam para ver e pediam para dar uma puxadinha na linha,ou colocar um “telegrama” que era um pedaço de papel que  subia na linha até a arraia.

Como o beco é muito pequeno para empinar papagaio, nós fomos para a Praça do Obelisco.

Acho que ficamos lá por muitos anos, pois  quando voltamos ao beco ele estava calçado, Brás Labanca havia falecido, o Cine Glória era agência bancária e a argola estava toda enferrujada.

 

                                Escritório de Brás Labanca
Eduardo Sarno

Nov/2003

 

 

O BECO LÁ DE CASA (1)

- crônicas poçõenses -

 O  beco entre nossa casa e o Cine Glória era o meu local preferido para as brincadeiras.

 No chão do beco havia   três pequenos buracos, enfileirados como as Três Marias no céu.  Ali  brincávamos de bola de gude, nas tardes intermináveis.

 O ganhador tinha de conquistar os três buracos na seqüência,  afastando as gudes dos adversários. Às vezes, com rolimãs de aço, tentava-se quebrar as bolas de gude dos outros meninos. Era admirado quem fosse maneiroso para segurar as bolas de gude, ter boa pontaria  e dedos compridos, para marcar o círculo em que a gude do adversário seria apanhada.

 Ninguém sabia como, e de repente todos mudavam de jogo, às vezes no mesmo período de férias. Quando era época de pião, os buracos de gude ficavam abandonados e o bamba era quem  colocava o pião na unha para rodar, e o super bamba era quem pegava ele no ar, na unha! Os menos destros ficavam maravilhados e algumas vezes se machucavam na tentativa de imitar. No circulo riscado no chão o pião de ponta de aço rachava os outros ao meio. Para não perder um bom pião, valia trocar por um mais ordinário, na hora de levar a porrada.

 Passado o tempo do pião, agora eram duplas batendo tampinhas de refrigerante desamassadas, nas paredes do beco. Eram as “fichas”, com tampinhas do guaraná e gasosas da  Fratelli Vita . Ganhava quem rebatesse mais perto da ficha do adversário. Apostava-se carteiras de cigarros  vazias, alisadas e bem dobradas. O papel  que envolvia os cigarros era cuidadosamente dissolvido na água,  e a fina  película de alumínio que ficava era utilizada para formar enormes e pesadas bolas, as maiores chegando a ter vinte centímetros de diâmetro! Era uma espécie de troféu.

 O Astória valia menos, Continental um pouco mais, e  “Roliude” já era  um valor razoável. Cada garoto tinha no bolso o seu maço de carteiras  , e quando  chegavam fumantes de fora ia ver se não traziam “Malboro” ou “Luquistrique”: valiam três “Roliude”! O maço  aumentava quando se achava carteira vazia, ou diminuía  perdendo na “ficha”.

  Passada a época das “fichas”, agora o que vale é  “triângulo”. Cada  garoto já carrega o seu canivete ou estilete.  Procurava-se no beco um lugar que fosse mais consistente, riscava-se  no chão dois triângulos separados , no arremesso  tentava-se cercar o outro traçando linhas a partir do ponto onde se fincou o estilete. Se este não fincar, perde-se a vez. A grande destreza era fazer o canivete rodopiar no ar antes de fincar no chão. Iniciava o jogo quem fincasse mais próximo de uma linha riscada no chão.

 Já esquecemos o triângulo, agora é tempo de “setas” : um  prego  afiado, três ou mais penas de galinácea e cera de abelha para dar  peso e segurar o prego nas penas. E lá se vão todos procurando portas e janelas no beco para treinar a pontaria e disputar pontos nos alvos.

 Chegou a época de empinar arraias : talisca de bambu, cola, papel de seda e linha Urso número zero. Pequenas ou grandes, sempre coloridas e longos rabos de retalhos de pano. Algumas tinham linhas “temperadas” com pó de vidro e goma arábica, para cortar  a  dos outros. Quando isto acontecia, era a festa para a molecada, que saía correndo atrás da arraia .

 

Até o Dr. Ruy Espinheira fez uma arraia “Couro de Boi” que maior nunca se viu. Todos paravam para ver e pediam para dar uma puxadinha na linha para sentir a força, ou para colocar um “telegrama”, que era um pedaço de papel que  subia na linha até a arraia.

 Como o beco era muito pequeno para empinar papagaio, nós fomos para a Praça do Obelisco.

 


Acho que ficamos lá por muitos anos, pois  quando voltamos ao beco ele estava calçado, as paredes pintadas e as rodas  dos carros passando por cima da nossa infância.

 Eduardo Sarno

set/2019

13 março 2024

 

OS ITALIANOS E A ÁGUA

* crônicas poçõenses *

 

                                          Seu Joaquim (aguadeiro)
Em Poções, até o final de 1950 não havia água encanada. A cidade era abastecida pelos aguadeiros, que traziam a água em carotes, no lombo de jumentos. Quatro carotes faziam uma carga e era comum vê-los passar pelas ruas. As casas tinham sempre uma entrada de serviço, para este fim, com uma argola no muro, para amarrar os animais.

Os carotes – barris de madeira – com capacidade em torno de 20 litros, eram tampados com tarugos de madeira ou sabugo de milho, envoltos em pano. O furo do suspiro era indispensável, para que a água desse vazão. Tinham duas alças de ferro, para pendurar na cangalha, e que ajudavam na hora em que eram carregados no ombro.

 A água boa de beber vinha de Cachoeirinha, distante uns quatro quilômetros, e era despejada, devidamente coada em um pano de algodão, direto nas grandes talhas de barro. A tampa da talha era redonda, de madeira, com uma haste, para facilitar o manuseio. Dentro eram colocadas pedras de enxofre, pois os filtros de barro com velas só vieram tempos depois.

A água de uso comum vinha do açude do rio São José, mais perto da cidade. Os aguadeiros tinham sempre de subir uma escada para despejar a água no tanque da casa, onde também havia pedras de enxofre.

Tempos depois meu pai mandou instalar uma bomba manual em um pequeno tanque ao nível do chão, onde o aguadeiro ia despejando os seus carotes e  a nós, meninos, cabia a tarefa de acionar a bomba, jogando a água no reservatório superior !

Outra fonte de água era a chuva. Em nossa casa havia um enorme tanque – parte  subterrâneo, parte externo – que acumulava a água de chuva. Quando meu pai estava na Casa Sarno e começava a chover ele ia para casa e manobrava as calhas para que a primeira chuvada- ou “apaga pó”, como é apropriadamente chamada em algumas regiões da Bahia - servisse apenas para limpar as telhas, e logo em seguida a água era canalizada para o reservatório. Fazer calhas e bicas era um trabalho artesanal, feitas sob medida com folhas-de-flandres pelos funileiros locais, como Deco Lago e Flávio Funileiro.

 Em frente à nossa casa, o aguadeiro favorito dos tios Valentim, Camilo e Emílio era Zé Peteleca. Alto, muito ativo e sorridente, quando passava pela varanda da casa e via Rosa Alba, minha prima, com duas trancinhas no cabelo e rosto redondinho  de anjo, dizia: “Bom dia, minha prencesa !”  Rosa ficava maravilhada, divagando no imaginário das fadas, castelos e príncipes ...

Mais acima, ainda na Rua da Itália, Luis Sarno, com o terreno da casa em declive, fazia malabarismos mecânicos para coletar e distribuir a água na casa, para uso da família e do seu lazer predileto: cuidar das plantas e árvores frutíferas.

 Havia ainda uma outra opção em nossa casa, que era a cisterna. Diferente da cacimba, a cisterna tem uma proteção de alvenaria em volta e é coberta. Quando olhávamos para o fundo podíamos ver as enormes pedras que foram quebradas para se atingir o minadouro. Era um terror para nós, meninos, pensar em cair ali dentro !

A água da cisterna era retirada com roldana, e era uma arte encher o balde de água, lá em baixo, na ponta da corda. Depois foi colocada uma bomba manual. Mas a água era “pesada”, um pouco salobra, não se prestando para o uso doméstico. Ela era então despejada em um grande tambor forrado de cimento, que ficava no meio do jardim, e servia para regar as plantas.

 Para o banho, meu pai, com a ajuda do cunhado Chico Sangiovanni, mandou fazer um engenhoso sistema de serpentina para aquecer a água. Como a cozinha ficava perto do banheiro, foi colocado um pequeno tanque na parte superior, do qual descia a tubulação que dava uma volta no fogão, que era a lenha. Assim, a água quente era constante e sem custo.

O fogão já vinha equipado com um recipiente esmaltado embutido, que também aquecia a água para o preparo da comida, pois não se usava jogar água fria nas panelas. Minha mãe também conservava uma chaleira com água aquecida, em cima da chapa do fogão, para qualquer eventualidade, como era usual na época.

 Os dormitórios das casas, em geral, ficavam distantes da copa ou da cozinha. Assim, era de grande utilidade o uso das moringas, seja de barro ou de vidro.

Esta dependência do trabalho  dos aguadeiros durou até que foi inaugurada a água encanada, vinda da barragem de Morrinhos, no rio das Mulheres, distante cerca de doze quilômetros, já perto da Serra da Ouricana. Quando abriram o registro, a comitiva de autoridades veio em disparada para Poções, para abrir a primeira torneira que jorraria a água encanada!

 O trabalho para colocar as tubulações nas ruas durou algum tempo, e as valas ficavam abertas.

 Do alambique da fazenda de Waldemar Guimarães – feito por José Domarco – saia uma “branquinha” da qual Quito Fagundes e seus amigos Afonso Manta, Solon Macedo, Irineu Sarno, “Mama na Loba” e Humberto Schetinni eram contumazes consumidores. Contam que, na época em que as ruas estavam com as valas abertas para colocar as tubulações, Quito ao sair cambaleando do bar Sombra da Tarde, ou do Bar e Sorveteria de João Liguori  entrava na vala, que ia dar direto em sua casa.

 Sem as valas ele voltou ao seu habitual meio de transporte após “comer água”: um birimbano (molecote, na gíria local) o levava até em casa em um carrinho de mão!

Já nos tempos da água encanada encontramos Joaquim, velho aguadeiro de mãos calosas, que comentava saudoso e orgulhoso:

“-Já botei muita água na casa de seu Corinto Sarno e de seu Antonio Leto ! “

Eduardo Sarno

11.07.08

 

ESCOLA PRIMÁRIA  ALEXANDRE PORFIRIO

* crônicas poçõenses *


Se me perguntassem quem foi Alexandre Porfírio não saberia responder com clareza. Parece que foi um educador, professor ou algo assim. Já se falou qualquer coisa a respeito do Alexandre Porfírio, mas certamente nada importante, porque a memória não registrou. Para nós alunos, Alexandre Porfírio nada mais era que um cabeçalho que éramos obrigados a escrever em todas as provas e trabalhos, no papel almaço.

Eu não estava sorrindo quando para lá fui levado pela primeira vez. Não. Chorava e esperneava, para  tristeza de minha mãe que, paciente e enganosamente me explicava que teria que ficar ali justo o tempo necessário para que ela terminasse de fazer a macarronada. Logo em seguida eu poderia ir para casa.

As pessoas ali até que não eram estranhas, pois eu conhecia alguns alunos e professores. Mas o que me atemorizava era o lugar em si, ter de estar ali, a relação que se estabelecia, de aluno para professor, as normas que eram obedecidas, com todo  mundo sentado dando lição. Adeus liberdade de ir e vir pelos matos, badocando, de não ter a preocupação de levantar cedo e fazer deveres. Ali  tinha de deixar de ser bicho comodista e virar gente. Fiquei.

Nas paredes, os grandes cartazes coloridos davam conta de todos os tipos de peixes, de plantas e de animais. Tudo numerado, com o correspondente nome embaixo. Nos mapas, cada país de uma cor, tudo bonito de se ver.

Mas, o nó na garganta era a tabuada, Todo mundo em pé, em fila, com as multiplicações, divisões e novesfora sem gaguejar. O nervosismo, o calor e a farda de brim caqui, parecendo fardão militar, com botões dourados, ajudavam a atrapalhar. A tabuada era um folheto pequeno, fino, mas como pesava na nossa cabeça!

Tudo era fila. Para entrar na escola, tinha que fazer fila e cantar o Hino Nacional, Hino da Liberdade ou o Hino da Bandeira. A letra dos hinos estava impressa nos nossos cadernos.

 Depois do recreio também tinha de fazer  fila. Todo mundo suado, empoeirado, fedendo. Esticávamos os braços tocando no ombro do colega para marcar a distancia, mas quando começávamos a andar, era um empurrando o outro, como se não houvesse lugar para todos.

As salas eram grandes, espaçosas, ventiladas. As carteiras grandes para o nosso tamanho, de madeira maciça, cheia de nomes gravados. No meio da carteira  o buraco para colocar o tinteiro. Embaixo, o lanche, a tabuada, o caderno e os  livros e o mata-borrão. Dentro de uma caixinha a pena de bico. Ah! o caderno de caligrafia, obrigatório e inestimável. A caneta tinteiro – Parker e com uma bombinha  de borracha dentro – só aparecia em nossas mãos bem mais  tarde, como presente de conclusão de curso.

  As professoras, não sei por que,  davam a impressão de que estavam ali há muitos anos e que ficariam também por mais tempo do que podíamos imaginar. Tinha um quê de coisa imutável. Esta impressão fica ainda mais viva, quando encontro, quarenta anos depois minhas antigas professoras ainda em atividade: Jacy Rocha, Madalena Curvelo, Celeste Pinto Curvelo, Bohemia Marinho. São como anjos bons, inesquecíveis.

Não me lembro  mais de tudo que aprendi ali. Mas deve ter  servido para muita coisa. Ficava sempre pensando, se depois vou esquecer tudo, para que aprender?

Aprendi que era “gringo” ou filho de “gringo”, que era a mesma  coisa. Gringos eram meus pais e meus tios, comerciantes italianos que haviam se estabelecido em Poções há cinco décadas.

Durante o recreio, o baba era a diversão de todo dia. Suados, empoeirados, assim iam para a fila para poder entrar na sala de aula. Daí o  cheiro de suor, inconfundível, ajudado pelo abafamento do fardão de brim cáqui.

As meninas jogavam “baleado”. O grande final foi um torneio em que disputaram meninos e meninas. Do nosso lado ficou, por último, João Ferraz e no das meninas, Glorinha Macedo.A luta parecia interminável, os dois se esforçavam ao máximo e a torcida já estava rouca. De repente João “baleou” Glorinha! Nesse dia ele foi carregado nos ombros, em apoteose, com direito a uma volta olímpica pela Praça do Obelisco, em frente à Escola.

Hoje, passados muitos anos, eu sei, de cor e salteado, quem foi Alexandre Porphyrio de Almeida Sampaio. Professor de Português do Ginásio da Bahia, em Salvador, publicou em 1924 “Estudos de Português”, fundou  o Ginásio Ypiranga e o administrou por muitos anos quando ainda funcionava no Corredor da Vitória. Vendeu depois para seu amigo e concunhado professor Isaias Alves de Almeida, que o transferiu para a Ladeira da Praça nº 18. Em 1911, tendo comprado a casa onde faleceu Castro Alves,  no Sodré, por 35 contos de reis, o professor Isaias Alves transferiu para lá o Ginásio Ypiranga.

 

Eduardo Sarno

Out/97

 

 

CASA SARNO: UM SÉCULO

 


Fundada em Poções, interior da Bahia no ano de 1896, a Casa Sarno vem  de completar um século de existência.

Francesco  Sarno, natural de Mormanno Itália, aventurou-se primeiro na Amazônia, passando por Manaus. Acompanhado por Fortunato Orrico, amigo e cunhado, resolveram fugir do calor, descendo em direção à Bahia, onde sabiam que encontrariam, em São João de Alípio, atual Jânio Quadros. Miguel Orrico sogro e pai, respectivamente.

Sapateiro por profissão Francesco Sarno pode percorrer algumas cidades do interior do Estado, antes de se fixar em Poções , como comerciante.

O lugar que, em 1817 o Príncipe Maximiliano  de Weid Neuwied havia descrito como “uma dúzia de casas e uma capela feita de barro” não havia mudado muito, mas Francesco Sarno conhecido popular e abrasileiradamente como Chico Sarno, resolveu enfrentar o desafio.

Eram tempos difíceis. Não havia luz elétrica, as comunicações eram demoradas, o abastecimento precário. A presença e a ameaça dos jagunços, como o bando dos Cauassús era uma constante.

À luz do lampião, Chico Sarno  contabilizava pacientemente suas vendas e seus fiados. O inicio do século o encontra devidamente registrado para o comércio de fumo em bruto, tecidos e bebidas alcoólicas. Do madrasto ao brim, da chita ao chitão, da bulgarina francesa às ceroulas de linho, lá estavam os tecidos da época ; para a confecção, os aviamentos apropriados como linha Alexander e botões de vidro; nas ferragens os afamados pregos caibrais ; na alimentação os frascos de ameixas, as libras de manteiga e as latas de sardinhas. Havia sacos de chumbo, barril de pólvora e barrica de salitre. Na caderneta do fiado ou contas do Rol, lá estavam os patrícios João Rotondano, Antonio Gatto, Baptista Scaldaferri, Carlos Colavolpe, José Arléo, Angelo Logetto e outros.

Tendo-se agradado da terra e da gente, Chico Sarno mandou buscar em Mormanno o sobrinho Vincenzo Sarno, a quem deixou como sucessor, ao retornar  definitivamente a Trecchina, em 1920. Em seguida vieram , o filho Vincenzo Orrico Sarno e os outros sobrinhos:Corinto,Valentino,Camilo,Luigi,Emílio e Rosina Libonati.

A firma cresceu, expandiu-se para Jequié e Salvador. Os irmãos Sarno ficaram sócios até 1965, quando resolveram repartir a firma amigavelmente.

Francisco Pithon Sarno, da terceira  geração, no ramo de ferragens e na tradicional loja da rua Guindaste dos Padres, em Salvador, tornou-se sucessor da Casa Sarno. O centenário se comemora tendo a quarta geração na direção dos negócios.

A Família Sarno, já na quinta geração ,reconhece a aventura e o sacrifício por que passaram os que primeiro emigraram, e agradece a herança que , na concepção deles, era a maior de todas: a educação dos filhos.

Eduardo Sarno

Maio/97