21 julho 2009

V. Sarno & Irmãos

V. Sarno & Irmãos
Na frente: Corinto, Valentim e Camilo Sarno, o Sr. Nogueira e um funcionário.
A firma era de Vicente Sarno, que tinha os irmãos como sócios e este foi um dos locais na cidade em que tiveram a loja.
O jacaré que está no cartaz não é do Lacoste , é o do famoso "Kerosene" da Esso.
Na época não havia posto de combustível, a gasolina era vendida em latas.
Este sobrado era a casa comercial mais vistosa de Poções.

08 julho 2009

Sangiovanni: Genealogia e Folclore

Luigi Sangiovanni (1853-1934)
Este nome é “composto com aglutinação do San. A base é “Giovanni” (João), que se afirmou desde o primeiro cristianismo pelo culto e prestígio de S. João Evangelista e São João Batista. Continua o pessoal latino “Iohannes”, adaptação do grego “Iôánnês”, originário por sua vez do nome hebraico “Yôhânân”, formado de “Yô”, abreviação de “Yahweh” (Deus) e “hânan” (ter misericórdia) com o significado de “Deus teve misericórdia”. (Coen-1989)
“Latinizado em “Johannes” , se fixou no italiano em “Giovanni” . O sobrenome é um patronímico que recorda o nome do fundador deste tronco familiar”. (Mioranza-1997)
O nome São João nos remete à festa do santo do mesmo nome, o Batista, que era primo de Jesus e foi degolado no castelo de Macheros, na Palestina.
“Toda a Europa conheceu essa tradição de acender fogueiras nos lugares altos e mesmo nas planícies, as danças ao redor do fogo, os saltos sobre as chamas, todas as alegrias do convívio e dos anúncios de messes abundantes”. (Cascudo-1962)
Também na Itália havia o costume de dois amigos pularem a fogueira para se tornarem “compadres”. Em diversas regiões da Calábria este costume tinha o nome, nos dialetos, de “sangiuvanni” , “sangiuanni” , sanciuvanni” e “sangianni” . Era o “comparatico” (compadrio), relação de “compare” (compadre) que se fazia no “giorno di San Giovanni” e usado também no sentido de “compare de anello” (compadre de bodas) ou “di battesimo” (de batismo). Assim, dizia-se “ficeru lu sanciuanni” (fizeram o compadrio), ou “simu sangiuvanni” (somos compadres). ( Rohlfs-1977)
Nosso Sangiovanni é de Mormanno – Cosenza – Calábria – e a referência mais antiga que temos é de Luigi Sangiovanni (1853-1934), casado com Anna Cardone. Tiveram um filho Pietro Sangiovanni (1872-1913), casado com Agatarosa Sangiovanni (1882-1942) que tiveram 5 filhos : Luigi Sangiovanni (*1904), Anna Maria Sangiovanni (Aninna)(*1906), Vincenzo Mario Sangiovanni (*1908), Domenica Sangiovanni (Miminna) (*1910) e Amedeo Giovanni Sebastiano Sangiovanni (*1913).
Este último inaugurou a tradição de ser conhecido por nomes diversos: Tio Chico, Chico, Francisquinho, Dom Ciccilo, Francesquino, Franco, Fran, Frisquino, Francesco, Francisco... e notem que no nome dele não consta Francisco. Esta variedade de apelativos constou na camiseta elaborada para a concorrida festa dos seus 80 anos, em Morrinhos.
Amedeo Giovanni Sebastiano Sangiovanni
Ele é o pai de Luiz Sangiovanni, gestor deste Blog, que conseguiu superar o pai, relacionando nada menos que 163 maneiras pela qual o seu sobrenome foi modificado. Com este exemplo fica claro entender as modificações que os sobrenomes adquirem no correr da história, fato corriqueiro com os sobrenomes italianos no Brasil.
VARIAÇÕES DO NOME SANGIOVANNI NA FORMA DE PRONUNCIAR E ESCREVER :


Luiz Sangiovanni
BONGIOVANI - pelo vendedor de óculos da Ótica Ernesto
CALVA F. SANGIOVANNI - no cartão do Itaú
CARMELO FUGANDES SANGÜENARI - pela mãe americana de Marcelo
CARPEGIANNI - em 1981
DANJUVANE - no orçamento 466 da Nelinho Tintas
ELISA MARAIA COUTO SANGBIOVANNI - na relação do PIS (Elisa Maria Caputo Sangiovanni)
FRANGOVANNI – quando jogava bola.
GEOVANE – no geral
GERMANO - por um amigo
GIOVANIO – em Sergipe
GOVANI - email recebido da Sergifil - Aracaju
HEDELBRANDO - por um operador de máquinas
IDELVÂNIO – procurado por um cliente de Aracaju.
JANGIOVANNI - no certificado de renovação de carteira de motorista -Auto Escola Veja
JOVANI - de uma carta de cliente
JOVANIO – de uma correspondência vinda de Aracaju
JUVANE - no orçamento 466 da Nelinho Tintas
LUIZ GONZAGA CAJUTO SANGIOVANNI - correspondência enviada pelo Banco do Nordeste para Luiz Eduardo Caputo Sangiovanni
LUIZ SÉRGIO - carta vinda da Petrobrás e no registro do Hotel Sun Valley, em Bonfim-ba..
LUIZ VANNI - Na mala direta da Bocatti de Caxias do Sul.
LULA SANGUOVANNI - no mural do site www.terradodivino.com.br
MICKELY SAN GIOVANNI - revista Conquista News - nº 3 (Michele Sangiovanni)
MICLENE GUISEPPE - no certificado de dispensa do exército - Bruno (Michele Giuseppe)
PANGEOVANE - Na carta enviada pela Zebu
S. GIORCANNI – no convite do navio “Francesco Mimbelli”
S. GIOVANI - no registro de um programa de computador
S. NUNES – na lista de documentos do Baneb
SÃ GIOVANI - na carta de um cliente e em um e-mail.
SABAJANE - procurado por um cliente.
SAGIOVANE - em um envelope./Cliente de Maceió.
SAGIOVANI – na lista da Bahiasat.
SAGNIOVANNI - na resposta do provedor Terra
SAGOVANE - no controle do carro
SAIOLOVANNI - Correspondência recebida por Rafael, meu sobrinho.
SAM GEOVANNI – em uma correspondência
SAM GIOVANI - na revista da Pirelli
SAMGEOVANI - Correspondência de uma Prefeitura
SAMUEL - chamado por um cliente.
SAN – na forma rápida.
SAN DIOVANNI - correspondência recebida por Michele
SAN E GIOVANI - No corpo de uma nota fiscal.
SAN GENARO - chamado por um cliente
SAN GEONAVANI - por uma amiga de Carla
SAN GEOVANE - na portaria da Profertil
SAN GEOVÂNI – em uma agenda telefônica
SAN GERALDO - chamado pelo preposto da PM Antas
SAN GEWALIO - Em um email de cliente
SAN GIO VANI - na inscrição de Juliana
SAN GIONAVI - na observação de uma nota fiscal da Cummins Leste
SAN GIOVANNE - em um fax orçamento
SAN GIOVANNI – na caneca do festival de chope de Poções/Passagem da Gol
SAN JEOVANE – em um fax recebido e na receita do remédio.
SAN JOUANE - em email para Carla
SAN JIOVANE – na carta enviada por um cliente
SAN JOAQUINE - na fatura de serviços.
SAN JOVANE – no cadastro da Polidiesel
SAN JUAN - chamada pela professora de português de Carla
SAN JULIANO - pelo gerente da Svedala.
SAN JUNVHÂNIO - de uma carta recebida por Marcelo
SAN MARINO – confundido pelo personagem da novela Andando nas Nuvens.
SAN ROVANE - Na correspondência recebida por Bete.
SANDIOVANNI - em um orçamento
SANDOVAL - na avaliação da academia de Ricardo
SANDROVAN - Pelo dono da Pontual Transportes
SANGELVANE – no manifesto de carga de uma transportadora
SANGELVANI – fax recebido de Maceió
SANGELVANIO - bilhete escrito por um cliente de Aracaju
SANGEOVANE – um orçamento recebido.
SANGEOVANI – em um lembrete de correspondência
SANGEOVANIO - em um fax vindo de Petrolina
SANGEOVANNE - na assinatura da Sky.
SANGEOVANNI – na carta enviada por um cliente
SANGEOVANNY - Em um email da Construtora Franco Araújo
SANGEOVANO – na ficha médica de Carla.
SANGERANIO - Por um Residente do Derba
SANGEVANE - em um bilhete
SANGGIAVANI - no email da Vipal
SANGGIOVANI – no bilhete recebido por Marcelo
SANGGIOVANNI – no crédito de uma fotografia publicada no jornal A Tarde
SANGIAOVANNI – numa autorização de seguro da Sul América.
SANGIAVANNI – em um contrato
SANGIO SVANIO - em um fax
SANGIOAVANNI - no cartão do Hiper
SANGIOBANNI - no registro da reserva no Hotel Renaissance
SANGIOFANNI – no cartão de embarque da Lufthansa
SANGIONANNY - no envelope de revelação fotográfica
SANGIONAVE - no envelope de uma correspondência
SANGIONI – chamado por seo Monteiro.
SANGIONNI - na abertura de uma Ordem de Serviço na Technico, de 1997
SANGIONVANI - na ordem de serviço da Ibéria Transportes
SANGIONVANNI - de uma correspondência de cliente
SANGIOPVANNI - na observação de uma nota fiscal
SANGIORVANNI – quando apresentado por um colega de trabalho.
SANGIOVA - Na mala direta do comprafacil.com
SANGIOVALLE – registro do Sun Valley Hotel em Sr. do Bonfim – Bahia.
SANGIOVAMI - correspondência enviada pelo Senac
SANGIOVANCIO - chamado por um amigo
SANGIOVANEM - na etiqueta dentro do computador
SANGIOVANI – na conta de água da Embasa
SANGIOVANIN - no cadastro de Bete na Insinuante
SANGIOVANN – no boleto do Itaú.
SANGIOVANNGI - na agenda de um celular
SANGÍOVANNI - no convite de encerramento de Carla, no Vieira
SANGIOVANNIN – em um álbum de fotografias
SANGIOVANNY – em um bilhete.
SANGIOVANY - em correspondência.
SANGIOVARDI – de uma correspondência
SANGIOVARNO – de uma mala direta.
SANGIOVAURI – na nota fiscal do computador.
SANGIOVAVANNI – na carta da Novaterra
SANGIOVONI - no convite de casamento.
SANGIVANNI - em um fanzine da Facom.
SANGLOVANI - na ficha de um hotel, em Lençóis
SANGNOVANNI - revista Alô Bahia - nº 107
SANGOFHNNI – no cartão de embarque da VARIG
SANGOIANI – na requisição médica
SANGOIVANNI - na nota fiscal do Hotel em BH
SANGOVANE - Em um envelope
SANGROVANNI - no boleto da internet
SANGUINETTI – chamado pelo português do Gás
SANGUIOVANI - cartão enviado para meu pai / No envelope do convite de Daniel
SANGUIRANI - chamada pela professora de Carla
SANGYOVANY - na escola de Juliana.
SANJELVANE - em um orçamento.
SANJEOVANE – nos orçamentos da Cadil.
SANJIONANI - na cotação da Sérvia
SANJIOVANE - Na agenda de reunião de Bruno na PM Ituberá
SANJIOVANI - em um orçamento
SANJOVALDO - em um recado deixado na secretária do celular
SANJOVANY - em uma correspondência
SANNGIOVANE - a agenda do celular de um amigo
SANNGIOVANI - na ata de reunião da Sibra / Email vindo de Technico Norte
SANNGIOVANNI - na biblioteca do colégio de Carla
SANNJIOVANI - no sedex vindo de Petrolina.
SANQIOVANNI - mensagem recebida pela internet
SANQUIOVAN - mensagem recebida pela internet
SANQUIOVANNI - Pela internet
SANSILVAR - funcionário da PM Wenceslau Guimarães ao buscar uma peça
SANSIOVANNI – no carnê da prestação do carro.
SÃO GEOVANE - em um envelope e em um bilhete.
SÃO GERÔNIMO - no envelope de correspondência
SÃO GIOVANNI Assistência Técnica de Empilhadeiras - Carta enviada pelo cliente
SAÕ JOVANI - Em um e-mail
SARGENTO GIOVANNI - por uma pessoa procurando de emprego.
SARGIOVANI – no cartão de embarque da Nordeste.
SAUGIOVANI -em um fax proposta
SAVASTRANO - pelo comprador da Embasa.
SÉRGIO VANE - chamado pelo porteiro da Ferbasa.
SERGIVAM - por cliente solicitando informação.
SHANGEOVANI - envelope correspondência recebida por Marcelo
SNAGEOVANE - no fax de um fabricante
SNAGIOVANNI - no pedido da Cimento Nassau
SNGIOVANI - na lista para distribuição das cocadinhas de cacau
SONGEOVONI - No convite para uma festa
SONGIONE – no bilhete da Transbrasil
SONGIOVANI - no bilhete escrito pelo porteiro
SONGIOVONNI - na campanha de Ricardo para a presidência do grêmio do CAV
TCHANTCHANI - apelido de Rafael na escola porque alguns não acertavam a outra forma
TCHANTCHANTCHANI - apelido de Rafael na escola
TONHEGIOVANI - Chamado por um cliente
WILL SANGIOVANI – no bilhete da Vasp
ZÉ GIOVANI - chamado por um cliente

Eduardo Sarno
07.06.2009

05 julho 2009

Doces e Conservas

Em função do rigoroso inverno, desde longa data as famílias européias se obrigam a dominar as técnicas primárias de conservação de alimentos. A busca de condimentos que, além do sal, conservassem e dessem sabor, motivou em parte o ciclo das grandes navegações, em busca das especiarias orientais.
Os italianos em Poções, imbuídos deste traço cultural, procuravam transformar, de maneira artesanal e familiar alguns alimentos perecíveis em conservas duradouras.
No quintal da casa de Corinto Sarno, havia um pequeno cercado com um ou dois porcos para serem engordados. Os restos de comida iam para eles e com curiosidade acompanhávamos o crescimento daqueles animais sem graça, que roncavam e fuçavam a lama.
Quando meu pai achava que era chegado o dia do sacrifício iniciavam-se os preparativos. Vitalino vinha do Armazém Sarno com outro “camarada”- como meus tios chamavam os ajudantes- em Poções também conhecidos como “chapas”. Eles afiavam calmamente uma grande “peixeira” (1) na pedra de amolar, jogando água para o fio ficar doce. No fogão à lenha que ficava no quintal de cima, Joaninha, a empregada, já havia colocado um grande caldeirão com água para ferver. Lenha tinha em abundância no chamado “quarto da lenha”, onde havia também um monte de carvão que, certa feita, durante um aniversário, eu Carlito e Luizito tocamos fogo, criando um pandemônio.
No meio do quintal havia um cimentado, uma espécie de “altar” para sacrificar porcos, e para lá ele era levado, sob protestos e altos berros. Para nós era um contraste a gritaria que o porco fazia antes e o silêncio em que ficava depois. Vitalino, segurando-o firmemente pelas orelhas e com os pés já amarrados, encostava primeiro a ponta e depois enterrava toda a lâmina da peixeira no pescoço do bicho, procurando atingir a jugular. Para não ter de introduzi-la outra vez ele preferia agilmente tentar fazer com que a lâmina remexesse dentro do talho.
O sangue que jorrava era cuidadosamente aparado por nós em uma panela com vinagre e mexido com uma colher de pau, para não qualhar. Era para fazer o “sanguinaccio”(2), um delicioso doce onde até o caldeirão usado era depois disputado por nós para ver quem o lambia. Depois de pronto e despejado em diversos pratos o doce era guardado à chave. Fazia parte do ritual social mandar um prato de “sanguinaccio” para cada tia. O segredo do doce estava em seus ingredientes: leite,maizena, chocolate, açúcar, castanha, uva passa , casca e caldo de laranja . A receita que tia Giuseppina fazia levava arroz, o que era uma variante. Uma outra variante inusitada foi no dia em que mandaram eu ir buscar açúcar na Casa Sarno, que na época vendia secos e molhados. Ao invés de apanhar o açúcar peguei o sal, que tinha embalagem semelhante, de papel, que era feita na própria loja. Depois que colocaram o sal no “sanguinaccio” ninguém acreditou que eu não havia feito de propósito e o castigo foi ficar preso em um minúsculo sanitário das empregadas, onde peguei no sono.
Finda a sangria iniciava-se o péla-porco: jogava-se a água fervendo na pele, e os “camaradas” raspavam todo aquele pêlo duro com as peixeiras e depois esfregavam caco de telha para a pele ficar bem limpa. Nas dobras onde era difícil raspar se chamuscava com fogo de palha. Os cascos eram arrancados depois de aferventados com água quente, mas o rabicho ainda ficava lá.
Um corte então era feito do pescoço ao ânus e o peito era aberto a machadadas. Com perícia retiravam-se os intestinos, tendo o cuidado de extirpar o fel que, se rompido, iria estragar toda a carne. As tripas eram todas limpas, aferventadas, raspadas e reviradas, pois serviriam para fazer a lingüiça. Tudo que ia sendo retirado era repassado para o batalhão de ajudantes, constituído pelas tias, empregadas e nós, a garotada. A carne era moída, condimentada e colocada em enormes gamelas para depois encher as tripas. Usavam-se espinhos de laranjeira para furar as tripas fazendo sair o ar. Quando não se fazia lingüiça, tia Francisca fazia uma tripada famosa. As lingüiças (3) ficavam penduradas na despensa, com proteção contra os ratos, até estarem curtidas e prontas para se comer. A cabeça – ou fuçura – do porco era rachada a machado e Vitalino levava para ele juntamente com a buchada.

sopressata
Vitalino também abatia porcos por conta própria. Nestas ocasiões minha mãe era avisada e nos mandava buscar o sangue. E lá vínhamos nós pelas ruas, um segurando o caldeirão e outro mexendo o sangue com a colher de pau, num espetáculo dantesco e inusitado!
Na época em que, na fazenda Caititú, da Firma V.Sarno & Irmãos, havia grande produção de marmelo e a nossa despensa estava cheia, marcava-se um dia para se fazer o doce de corte. Joaninha, primeiro colocava os marmelos para cozinhar em um grande tacho de cobre, no fogão à lenha, e depois eram passados em grandes peneiras de palha. Em seguida, aquela pasta voltava ao fogo, onde borbulhava sob intenso calor. As empregadas mexiam sem parar com enormes colheres de pau, ao tempo em que se misturava o açúcar na mesma medida da pasta. Quando ficava no ponto era então despejada em fôrmas de alumínio que tinham a forma de peixe, cacho de uva ou simples retângulos. Depois de resfriada retirava-se das fôrmas, passava-se álcool e os doces eram revestidos de papel impermeável e transparente – celofane – e guardados no armário da despensa.
No quintal havia um grande forno à lenha, onde se fazia pão e principalmente “fresa”(4), um tipo de pão seco, redondo com um furo no meio, de grande durabilidade, que comíamos amolecendo em um caldo que tivesse azeite e temperos. Com a fresa ou com pedaços de pão dormido era feito o “panicottu” (5), onde o caldo era quente e continha ovos, tomate e muito alho cortado.
Junto a este forno havia uma torradeira de café que consistia em um cilindro de ferro que era aquecido a lenha. Com uma manivela fazíamos o cilindro rodar, para não queimar o café. Os grãos vinham da fazenda e haviam passado pelo Armazém Sarno, onde as “catadeiras”, também chamadas de “pianistas” (6) já haviam manualmente feito a limpeza. Depois de torrados, os grãos eram moídos em uma máquina que ficava na despensa. Ela, por ampliar a rotação através de engrenagens, permitia que nós também moêssemos o café, girando a manivela com as duas mãos. O café era tipo exportação, de primeira qualidade, e o cheiro era tão bom que minha mãe tinha o mau costume de passar café duas vezes com o mesmo pó!

O jenipapo era utilizado para se fazer o licor, que era um sucesso no São João. Minha mãe fazia também licor de uva e de leite.
Para se obter o vinagre havia um pote em que se colocavam bananas ou uvas, e aguardava-se pelo processo natural de fermentação. Depois aquela massa fermentada era coada em um pano e se obtinha o vinagre.
A banana era também cortada de comprido e colocada ao sol para desidratar, sendo comida depois com açúcar e canela. O lugar predileto para se colocar as peneiras com as bananas era sobre o tanque. Por vezes, ao mandar recolher, minha mãe encontrava as peneiras quase vazias, pois havíamos comido as bananas-passa.
Diariamente o leite vinha em abundância da fazenda em grandes latões, no lombo de jegues. Dele era feito a manteiga, a ricota e o queijo cilindró. Havia uma grande cabaça comprida que servia para bater o leite qualhado. Na janela da cozinha ficava pendurada, em um saquinho de pano, a ricota para escorrer o soro.
A conservação dos ovos era mais simples, pois bastava arrumá-los dentro de caixotes, ou potes de barro, entre camadas de areia.
Quando o preço estava baixo, minha mãe comprava alguns “panacuns” (7) de tomate que eram então aferventados, peneirados, e levados novamente ao fogo. Eram depois engarrafados em frascos de boca larga, tendo-se o cuidado de colocar azeite doce por cima, antes de fechá-los, para poder conservar o molho de tomate.
Preparados para um inverno que nunca chegou, os italianos se divertiam em saborear durante todo o ano as delícias das suas conservas.
Quando, já internos em colégios de Salvador, comíamos economicamente um pedaço de lingüiça, que a família havia enviado por algum portador, parecia que, em um fugaz instante, estávamos em Poções.

Eduardo Sarno
Set/98

(1) Peixeira- Facão curto e muito cortante.
(2) Com as variantes dialetais calabresas “sangunazzu” , “sanguinazzu” (Rohlfs-1977).
Na Itália é tradicionalmente preparado na época do Carnaval. O uso do sangue de porco fornece um característico retrogosto ácido. A partir de 1992 a venda de sangue de porco ao público foi proibida na Itália em algumas regiões e o “sanguinaccio” é feito imediatamente após o abate do porco por um açougueiro credenciado.
Minha irmã Noemia, quando vai a Poções e consegue sangue de porco, ela congela, e de volta para Salvador faz o "sanguinaccio", disputado pelos irmãos e primos.
(3) Lingüiça- em Mormanno conhecida como “sopressata” (salame), é um dos produtos típicos da região calabresa. Variantes: “suppressata”, “suprissatta”, “supprezzata” , “supizzata” (Rolfhs-1977) “soppressata”, “soppressato” (Bordo-1880), deriva de “soppressare” : imprensar.
(4) Fresa – ver artigo neste Blog.
(5) Panicottu – literalmente “pão cozido” – com a variante “panicuottu” (Rohlfs), significando também a papa da criança.
(6) Pianistas – ficavam todas sentadas em uma grande mesa, cada uma com seu espaço delimitado e catando os grãos como se estivessem tocando piano.
(7) Panacuns – palavra de origem tupi – grandes cestos de cipó que eram pendurados em cangalhas (armação de madeira) nos jegues.

15 junho 2009

A " Putía" de Giovanni Sola


Giovanni Sola era nosso tio por afinidade. Era casado com Carolina (Lina) Caputo, irmã de Anna Maria (Caputo) Sangiovanni), cunhada de minha mãe Anina Sarno. Mas para todos nós ele era o último tio que tinha vindo da Itália.
Rosto redondo, maxilares largos, braços fortes, olhos pequenos e bem azuis, lembrava o Gepeto, pai do Pinóquio. Nunca perdeu o sotaque nem a admiração pela Itália. O corpo estava aqui, mas a mente estava lá.
Ele era marceneiro de profissão, e os meus tios, que já estavam em Poções há muitos anos, ajudaram a montar a sua marcenaria.
Para surpresa nossa eles chamavam a marcenaria de “putìa”. Sorriamos escondidos, encantados por poder dizer “putinha de Tio Giovanni” na frente de todo mundo, fazendo de conta que tínhamos nos atrapalhado com a pronúncia.
Mas esta não era uma palavrinha qualquer, era um palavrão, no bom sentido. Ela nasceu na Grécia como “apothéke” (armazém, depósito), viajou para a Roma antiga como “ apotheca” (copa, dispensa) , circulou na Toscana como “bottega” (loja) e na Itália como “putighino” (lojinha) , e foi usada pelo dialeto de Mormanno como “putiga” – “ putía” : a marcenaria de Giovanni Sola em Poções !
Nas férias nós tínhamos uma escolha a fazer: ajudar na loja de tecidos e ferragens ou na “putìa” de Giovanni. Enquanto Pepone e José Fidelis escolheram a loja eu escolhi ajudar tio Giovanni.
Eu ia para lá todos os dias. E via chegar aquelas enormes pranchas de madeiras de lei, cedro, peroba, jacarandá, que tinham sido serradas por dois camaradas que ficavam operando uma grande serra manual em frente à Usina de Arroz de Fidelis. Eles armavam um jirau, onde apoiavam a tora, e enquanto um ficava em cima segurando a serra outro ficava em baixo e a grande serra ia e vinha fazendo o seu trabalho.
Giovanni havia trazido da Itália seus instrumentos de trabalho menores e seus catálogos de móveis. As serras, formões, esquadros, réguas e plainas ficavam penduradas na parede. Muitos destes instrumentos eram desconhecidos dos marceneiros locais que trabalhavam no Beco dos Artistas, em cuja esquina ficava a “putìa”.
Os catálogos eram cuidadosamente mostrados aos clientes e sentia-se um certo orgulho de tio Giovanni por saber confeccionar todos aqueles bonitos móveis. Não era um estilo antigo, rebuscado, nem tampouco um estilo moderno, despojado. Era um estilo, digamos, utilitário, funcional, sólido, com enfeites no limite do necessário.
Com destreza ele fazia e montava cuidadosamente todos os encaixes, lixava à perfeição e preparava no fogo a química da cola e do verniz. Aquele cheiro, misturado com o da madeira deixava a “putìa” com um odor agradável. A visão dos cavacos encaracolados saltando da plaina e acumulando-se no chão completavam aquela cena artesanal.

Ele tinha também todas as grandes máquinas elétricas: serra, plaina, torno e tupia. A energia na época era fornecida pelo motor particular da Casa Sarno. O motor de Brás Labanca, que atendia a cidade estava quebrado, aguardando um conserto de São Paulo que nunca chegou.
Muito conversador, Giovanni aproveitava todas as oportunidades para um bom papo. Com sotaque carregado e enfático nos gestos, tinha como assunto predileto a comparação entre o Brasil e a Itália. Ele representava o europeu pós-guerra que tudo reerguia através do trabalho. E criticava a pachorra e a ineficiência brasileira que nunca soube o que era guerra.
O intervalo para o lanche era sagrado. Tia Lina trazia da Padaria Vitória, de Antonio Leto um grande pão, partido ao meio, com recheio de fatias de tomate, pimentão e cebola. Comendo e conversando Giovanni passava em revista os seus argumentos pró-Itália.
Sem proteção nenhuma eu respirava diariamente aquele pó que deixava meu nariz entupido e meu cabelo colorido. E varria diariamente aqueles cavacos cacheados, amarelos, vermelhos e escuros.
No final da semana ele me dava alguns trocados, que era a conta certa para comprar gibis e ir à matinê no Cine Santo Antonio, assistir um filme de Tarzan e um seriado do Zorro.
Giovanni nunca voltou para a sua amada pátria. Viveu até o fim com suas inesquecíveis lembranças italianas. A bem dizer, nunca saiu da Itália.

Eduardo Sarno
Junho/02

10 junho 2009

Rua da Itália

Rua da Itália
Não foi sempre assim que ela foi chamada. Antes era Rua João Pessoa. E a rua, com esse nome, não era calçada. Os passeios eram altos e com a chuva a enxurrada descia forte, e tentar detê-las, com nossas barragens de barro improvisadas no meio-fio era um trabalho que demandava todas as nossas forças, depois das aulas na Escola Alexandre Porfírio.
Toda meninada participava da construção da barragem, trazendo o barro, pedaços de madeiras e pedras. Olhares atentos e mãos ágeis tapavam de pronto os rompimentos que eram constantes.
A enxurrada sempre vencia, mas nem por isso conseguia tirar o nosso prazer. E era um sempre recomeçar, mesmo que, covardemente, esperássemos o final da chuva, quando a enxurrada era menor. Além disso, tinha os barquinhos de papel.
Exemplares antigos de “A Cigarra” e “O Cruzeiro”, revistas ilustradas, forneciam as páginas que eram usadas para confeccionar os barquinhos. Dobra aqui, dobra ali e lá se ia o barquinho descendo na enxurrada. Nas laterais a figura do “Amigo da Onça” ou Getulio Vargas, todo engravatado, apertando a mão de alguém. O destino era o grande bueiro coberto de trilho na esquina do Beco dos Artistas , no final da rua, onde o barquinho desaparecia.
Na rua, as únicas casas de brasileiros era a do Pastor e a de Miguel Lopes, onde antes já havia sido residência do coletor Dr. Macedo e posteriormente do Juiz Dr. Eurico Alves Boaventura. A maioria das casas era de italianos, meus tios. Vivíamos em clima de intimidade indescritível, pois podíamos entrar em qualquer casa, sem cerimônias, principalmente nos quintais.
Depois veio o calçamento, a grande realização do Prefeito Dr. Aloísio Euthálio da Rocha. Para nós, foi o começo do fim. Adeus enxurradas com barragens. Adeus fogueiras de São João, quando o sufoco gostoso da fumaça nos fazia arder os olhos, e nem por isso deixávamos de ser felizes.
A Rua da Itália era passagem obrigatória da procissão e da Cavalhada na Festa do Divino. E aos sábados, desde cedo por ali passavam os mateiros e catingueiros, indo e vindo para a feira. Durante toda a semana era a vez de Arlindo Aguadeiro, com seu jegue e carotes trazendo água, vindo de Cachoeirinha, distante uma légua boa. E só não passavam os enterros porque o cemitério ficava do outro lado da cidade.
Na rua tinha o Cine Glória, o Fórum, a Tipografia e a Igreja Batista, que era chamada “dos crentes” ou de seu Alcides Batatinha, que era o pastor.
Com o calçamento, o passeio ganhou ladrilhos, colocados pelos moradores. E passear por ele nas noites frias, depois do jantar, era um prazer sem limites. Meu pai o fazia constantemente, e muitas vezes com minha mãe.
No começo da noite, o ponto do papo era normalmente a varanda em frente, de tio Valentim, ou a nossa. Lá marcavam encontro os amigos e os primos. Um deles, Fidelis do Arroz, sempre conversava sem tirar o cigarro da boca, e nos deixava tensos, aguardando a hora em que aquela enorme cinza iria cair na sua roupa, o que não acontecia. Irineu passava o dia procurando uma piada para contar à noite. E, entre risos, o papo se estendia noite adentro sob o céu estrelado.
Vultos trajando capa colonial passavam por nós. Rostos avermelhados, chapéu de massa na cabeça, lá se iam os italianos jogar "Três Sete” na garagem da casa de tio Luis. Entre eles, inconfundível, José Domarco, de chapelão e capa. Como iam, vinham, e já era então a hora do silencio se instalar na rua.
Brás Labanca, o dono do motor da cidade, depois que dava três sinais, apagando e acendendo as luzes, desligava a energia, deixando a rua e a cidade às escuras.
Como se num teatro, surgem dos bastidores os guardas noturnos, atores da madrugada. O som do apito lamuriento já ouvíamos com a cabeça no travesseiro e, ao mergulhar naquela sonolência, tínhamos uma sensação de segurança, conforto e eternidade.
A placa nova chegou num dia de muita festa: "Rua da Itália". No discurso, o Prefeito falou da gratidão da cidade pelo trabalho dos italianos para o progresso de Poções, que também já foi chamada de Djalma Dutra; a placa está lá até hoje. Quem saiu foram os italianos. Imigraram para Salvador, desta vez atrás dos filhos, netos e bisnetos.

Eduardo Sarno
Março/2001

09 junho 2009

Livros Relacionados

Trecchina nel presente e nel passato - Pasquale Schettini - 1947
Tipografia Ferrari - Occella & Cia - Alessandria - 270 págs.


Casa Confiança - Carlos & Carmine Marotta - 2004
Attucci Editrice - Carmignano (Po) - bilingue -ilustrado - 160 págs


A Itália no Nordeste - Manuel Correia de Andrade - 1992
Editora Massangana - Recife - ilustrado - 212 págs.
(Para adquirir: www.estantevirtual.com.br )


Foi tudo tão de repente... - Pedro Sarno (Autobiografia) - 2008
Edição do Autor- Salvador - Bahia - ilustrado - 292 págs.
(Para adquirir : edusarno@graunalivros.com.br )


Mormanno d´una volta - Vincenzo Minervini - s/d
Tip. Dott. Silvio Chiappetta- Cosenza - 80 págs.
(Com 2ª ed. pela "Il Coscile" - Castrovillari )


Italianos na Bahia e outros temas - Thales de Azevedo - 1989
Empresa Gráfica da Bahia - 112 págs.
(Para adquirir: www.estantevirtual.com.br )


História de Jequié - Emerson Pinto de Araújo - 1971
Imprensa Oficial da Bahia - 174 págs.
(Para adquirir: www.estantevirtual.com.br )


Capítulos da História de Jequié - Emerson Pinto de Araújo - 1997
Empresa Gráfica da Bahia - 264 págs.


A Nova História de Jequié - Emerson Pinto de Araújo - 1997
Empresa Gráfica da Bahia - 540 págs.
(Para adquirir : www.estantevirtual.com.br )

08 junho 2009

Italianos em Jequié

Pasquale Schettini no seu livro “Trecchina nel presente e nel passato” (1947) nomeia os seus compatriotas ainda jovens, que depois de uma estadia em Portugal, partiram para o Brasil. São eles:
Francesco D’Andrea, em 1860 ,conhecido como “O Brasileiro”; Biaggio Galizia, em 1863; Giovanni Rotondano, em 1866; Giuseppe Rotondano, em 1868 e Giuseppe Niella, em 1869.
Os dois últimos tiveram a iniciativa de abrir um pequeno negócio em uma encruzilhada de estradas de mulas, nas proximidades do Rio de Contas. O comércio logo prosperou e em torno dele se multiplicaram as casas e as bodegas, terminando por formar, no curso dos anos, uma florescente cidade de negócios – Jequié, que se tornou sede de uma vasta colônia de trequineses, os quais se sucederam de pai para filho, de irmão para irmão, de conterrâneo a conterrâneo, nos negócios e no comércio,
A vinda de Ângelo Grisi e Carmine Marotta para trabalhar na firma Niella & Rotondano garantiu a continuidade de um intenso trabalho, comercial e social, principalmente quando se tornaram sócios em 1889.
Neste mesmo ano, chegava a Jequié o pai do futuro governador do Estado da Bahia, Antonio Lomanto Júnior. Recebido por Grisi e Marotta, Lomanto estabeleceu residência em Jequié, casando-se com Teresa Orrico Rotondano.
Toda esta saga de lances históricos e heróicos é contada em detalhes pelo neto homônimo Carmine Marotta, em seu livro: “Casa Confiança (Trecchina- Jequié , uma ponte de recordações sobre o oceano)”
Em 1947, Schettini, refere-se ao comércio em Jequié como “de certa importância”, expressão modesta para retratar o que era, naquele ano, a fazenda Provisão, de Grillo, Marotta & Cia. Apelidada como “Suíça da Bahia”. A fazenda tinha uma cascata, com planos para ser aproveitada como produtora de energia, fábrica de gelo, estrada e linha telefônica direta para Jequié e as Matas. Como criadores, tinham animais premiados em várias exposições, todos das melhores raças: do garrote Indubrasil aos reprodutores Mangalarga e Sublime, dos carneiros Bergamasco e Merino, às galinhas Leghorn.
Além de serem representantes de sete bancos nacionais e estrangeiros e de diversas casas comerciais, também exportavam cacau, café, fumo, algodão, mamona e angelim-araroba.
A Firma Grillo, Lamberti & Cia fundada em 1922, ocupava um grande edifício no centro de Jequié, além de diversos imóveis na Avenida Rio Branco.
Limongi & Cia, também importadores e exportadores, inclusive dos pneus Pirelli, tinham um armazém denominado “A Lâmpada”, com completo sortimento de material elétrico.
A firma Fratelli Biondi era proprietária da Grande Padaria Bahiana, onde “tudo que se vende nesta casa é garantido”, como era divulgado na época.
No ponto mais central de Jequié estava instalado o afamado “Bar e Pastelaria Fascista”. Com salão de bilhar e barbearia, era o ponto de encontro da melhor sociedade local. Seu proprietário Miguel Ferraro, era um dos homens mais populares de Jequié, segundo se comentava.
A firma Geraldo Orrico & Cia, fundada em 1907, era também compradora dos chamados gêneros do país: cacau, café, fumo, etc.
Naqueles tempos as dificuldades sociais e naturais eram grandes. Quando não enfrentavam os jagunços, como Zezinho dos Laços e outros, enfrentavam as intempéries. Foi o que ocorreu a Ângelo Larocca cuja viagem com a tropa de mulas, de Jequié a Poções, distante 83 km, durou uma semana em abril de 1919, como nos conta Raul Sarmento, em detalhado e inédito relato que possuímos em nosso Arquivo.
Em 1934 um ônibus da empresa pertencente a Vicente (Orrico) Sarno transportou a comitiva de Juracy Magalhães, então interventor na Bahia, para Vitória da Conquista.
Cedroni foi o primeiro fotógrafo profissional de Jequié, e André Leto, também de Trecchina, foi o proprietário do cinema “Ítalo-Brazil” na década de 20. Os “Fratelli” Leto fabricavam também uma bebida refrigerante de diversos sabores, na época chamada de “gasosa”, que era consumida pelos espectadores após as sessões. Os “Fratelli” Leto possuíam também uma usina elétrica.
Estas atividades comerciais, na sua fase de expansão, duraram bastante tempo. Ainda na década de 50, Camilo Sarno abria em Jequié um armazém de compra e venda de “gêneros do país”, filial da Casa Sarno de Poções.
A trajetória comercial dos italianos na Bahia iniciava em Salvador, passava por Nazaré das Farinhas, Jaguaquara, Jequié e Poções. Curiosamente, nunca chegaram a Vitória da Conquista, onde o clima ameno podia-se supor, fosse um fator de atração para os imigrantes europeus.
Trecchina – Jequié... qual o elo misterioso que uniu estes dois lugares ?
Simbolicamente o sul da Itália foi unido ao sertão da Bahia pelo então governador Lomanto Júnior, que as tornou cidades irmãs, em 1963. Na ocasião, a comitiva que visitou Trecchina ainda foi recepcionada por Carmine Marotta, nesta época com 93 anos de idade.
Mas, é lendo nos registros e nos livros da história de Trecchina que sentimos mais claramente como nos são familiares estes sobrenomes que se destacam: Scaldaferri, Schettini, Grisi, Mensitieri, D’Andrea, Rotondano, Niella, Maimone, Caricchio, Ferraro, Pesce, Marotta, Orrico, Pignataro, Bartilotti, Vita, Sarno, Guerrieri, Acierno, Leto, Miccuci, Liguori, Colavolpe, Limongi...

Eduardo Sarno
Out/2003

Gli Italiani in Jequie

Fratelli Leto

Pasquale Schettini, nel 1947, nel suo libro "Trecchina nel presente e nel passato" parla dei suoi compaesani che dopo una sosta in Portogallo, ancora giovani, partirono per il Brasile.
Essi sono: Francesco D’Andrea, conosciuto come "O Brasileiro", nel 1980, Biagio Galizia, nel 1863, Giovanni Rotondano nel 1866, Giuseppe Rotondano nel 1868 e Giuseppe Niella nel 1869.
Questi due ultimi ebbero l’idea e l’iniziativa di aprire un piccolo negozio in un incrocio di mulattiere in prossimità del Rio das Contas. Il loro commercio prosperò così tanto, che attorno a loro si moltiplicarono le aziende e le botteghe che alla fine formarono, nel corso degli anni, una fiorente città commerciale: Jequiè.
L’arrivo di Angelo Grisi e di Carmine Marotta per lavorare nell’azienda di Niella e Rotondano garantì la continuità di un intenso lavoro commerciale e sociale in special modo quando questi due divennero soci nel 1889.
Sempre in questo anno giunse in Jequiè il padre del futuro Governatore dello Stato di Bahia, Antonio Lomanto Junior. Ricevuto da Marotta e Grisi, Lomanto stabilì la sua residenza in Jequiè, sposandosi successivamente con Teresa Orrico Rotondano. Tutti questi fatti storici ed eroici, sono raccontati nei dettagli dall’omonimo nipote Carmine Marotta nel libro, "Casa Confiança - Trecchina Jequiè un ponte di ricordi sull’oceano.
Nel 1947, Schettini, riferendosi al commercio in Jequiè lo definisce di "sicura importanza", espressione modesta per definire bene cosa era, in quegli anni, la Fazenda Provisão, di Grillo, Marotta e Cia. Chiamata "Svizzera di Bahia". La fazenda aveva una cascata con relativa attrezzatura per essere utilizzata per la produzione in proprio di energia elettrica, fabbrica di ghiaccio, strada e linea telefonica diretta per Jequiè. Come fattrici, tenevano animali premiati in varie esposizioni, tutti delle migliori razze: dal vitello Indubrasil ai riproduttori Mangalarga e Sublime, dalle pecore Bergamasco e Merino alle galline Leghorn.
Oltre alla rappresentanza di sette banche nazionale e straniere e di diverse aziende commerciali, esportavano, inoltre cacao, caffè, tabacco, cotone ed olio di ricino. Fondata nel 1922, la ditta Grillo, Lamberti e C. (di cui era socio anche Carmine Marotta) occupava un grande edificio nel centro di Jequiè, oltre a diversi altri immobili nel viale Rio Branco. Limongi & Compagnia erano importatori ed esportatori, incluso i pneumatici Pirelli, teneva um negozio chiamato "A Lampada" con un completo assortimento di materiale elettrico. La ditta Fratelli Biondi era proprietária della "Grande Padaria Bahiana", dove "tutto ciò che si vende in questa azienda è garantito" come veniva pubblicizzata all’epoca.
Nel punto più centrale di Jequiè c’era il famoso "Bar Pasticceria Fascista". Con la Sala Bigliardo e il Salone del Barbiere era il punto di incontro della migliore società locale. Il suo proprietario Michele Ferraro era uno degli uomini più popolari di Jequiè, come si diceva.
Fondata nel 1907 l’azienda Gerardo Orrico e Cia era acquirente di svariati generi tipici del luogo: cacao, caffè, tabacco, ecc. ecc.
In quel tempo le difficoltà sociali e naturali erano grandi. Quando non si affrontavano bravacci come Zezinho dos Laços e altri, si affrontavano le intemperie. Fu quando arrivò Angelo Larocca il cui viaggio con una mandria di muli da Jequiè a Poçoes, distante 83 Km, durò una settimana nell’aprile del 1919 come ci racconta Raul Sarmento in una dettagliata ed inedita relazione.
Nel 1934 un autobus dell’azienda appartenente a Vicente (Orrico) Sarno trasportava la comitiva di Juracy Magalhaes, in quel tempo mediatore in Bahia, in visita politica, per Vitoria da Conquista. Cedroni fu il primo fotografo professionista di Jequiè ed Andréa Leto, anche lui di Trecchina, fu il proprietario del cinema "Italo-Brasil". Fabbricava nel contempo una bibita rinfrescante dai diversi sapori, all’epoca chiamata "gassosa" che era consumata dagli spettatori dopo ciascuno degli spettacoli. I fratelli Leto possedevano, tuttavia, una centrale elletrica.
Queste attività commerciali nella loro fase di espansione durarono sufficiente tempo. Comunque nella decade del 1950 Camilo Sarno apri in Jequiè un negozio di generi alimentari per l’acquisto e la vendita di generi del Brasile, filiale della Casa Sarno de Poçoes.
Trecchina-Jequiè ...... quale è il mistero che unì questi due luoghi ?
Simbolicamente il sud dell’Italia fu unito alla foresta di Bahia dall’allora Governatore Antonio Lomanto Junior nel 1963. Nell’occasione la comitiva che visitò Trecchina fu ricevuta da Carmine Marotta, che all’epoca aveva ben 93 anni di età.
Ma è leggendo nei registri della storia di Trecchina che sentiamo più chiaramente come a noi sembra familiari questi cognomi: Scaldaferri, Schettini, Grisi, Mensitieri, D’Andrea, Rotondano, Niella, Maimone, Caricchio, Ferraro, Pesce, Marotta, Orrico, Pignataro, Bartillotti, Vita, Sarno, Guerrieri, Acierno, Leto, Micucci, Liguori, Colavolpe, Limongi...
Eduardo Sarno
Out/2003

07 junho 2009

Sarno em Uberaba-MG

Durante anos eu nunca ouvi meu pai e tios comentarem sobre os nossos parentes em Minas Gerais. Na década de 80, depois que eu gravei uma entrevista com Luis Sarno, ele me entregou um pacote de documentos. Entre eles, para minha surpresa, estavam cartas de meu tio-avô Antonio Sarno.
As cartas eram datadas de 1922 e vinham de Uberaba-MG, onde Antonio Sarno tinha uma vidraçaria.
Perguntado por Luis Sarno sobre a família dele, Antonio responde que tinha três filhas:
Uma se chamava Carmela (nome da tia dele, casada com Francesco Sarno) e já tinha naquela época dois filhos casados e mais dois filhos ainda estavam com ela. Mas ele não cita os nomes dos filhos de Carmela.
A outra filha chamava-se Teresa (nome da mãe dele, casada com Fedele Sarno),e tinha um filho casado e seis filhos ainda estavam com ela em casa. Também não faz referencia ao nome dos filhos.
A terceira filha,que ele esquece de dizer o nome , tinha dois filhos no colégio e um filho de 16 meses (que hoje, em 2009, teria 88 anos).
Uma estimativa das gerações poderia ser mais ou menos assim:
1ª geração: Antonio Sarno (1850-1930 ?)
2ª geração : Carmela Sarno ( 1880-1945 ?)
3ª geração : filhos de Carmela (1900-1960 ?)
4ª geração : netos de Carmela (1930-1990 ?)
5ª geração : bisnetos de Carmela (1950-2009 ?)
6ª geração : trinetos de Carmela (1980 - .......?)

Ou seja, estamos em busca do Sarno desaparecido. O descendente da 6ª geração estaria hoje com a idade em torno de 30 anos. E o descendente da 5ª geração em torno de 60 anos.
A descendencia é de Antonio Sarno, vidraceiro em Uberaba-MG na década de 20 , originário de Mormanno- Cosenza- Itália.
Como as filhas mulheres perdem o nome paterno, possivelmente os descendentes hoje não assinam o Sarno.
Aguardamos contato ou/e informações.

Eduardo Sarno
Junho/2009

06 junho 2009

O Beco dos Artistas

Para ser fiel à verdade, a placa azul com letras brancas dizia “Beco dos Artista” parecendo não levar em conta a pluralidade artística que havia ali, o que fazia dele um beco simpático, bem no coração de Poções.
Imprensado entre a farmácia do Dr. Ary Alves Dias e a Casa Sarno, proprietária dos cômodos do beco, ele ligava a Praça Deocleciano Teixeira, atual Raimundo Pereira de Magalhães à antiga Rua do Beco Apertado, ou Rua do Cine Santo Antonio, atual Rua Olimpio Lacerda Rolim. Como se vê não era um bequinho qualquer.
Tinha um calçamento rústico, tipo “pé de moleque”, que fazia trepidar as nossas bicicletas. Na esquina com a praça havia dois grandes bueiros com enormes trilhos transversais que engolia a água da chuvarada, que descia da Rua da Itália.
Nos cômodos pequenos, de um lado e do outro do beco, estavam os artistas. A confraria dos alfaiates era a maior. Otoniel, Dudu Marinho e os irmãos Arnóbio e Valter eram os autores dos ternos sob medida ostentados pelos homens e meninos. Lá foi feito o meu primeiro paletó, azul escuro, para a primeira comunhão. A calça ainda era curta, sobressaindo o sapato de verniz quebradiço.
Filó, Tião e Chirico eram os reis do serrote e da plaina. Foram eles que fizeram, por encomenda de André Pinto, a estrutura de um caiaque, que seria revestido de lona e batizado de “Blue Moon” (Lua Azul) uma balada muito em voga na época. Esta canoa chegou a dar uma volta no açude, com André todo prosa, remando. Mas ao chegar à margem, da multidão de curiosos avançou seu Tibúrcio com um “capa garrote” aberto na mão e rasgou de proa a popa o efêmero caiaque. Argumentou paternalmente que aquilo era um perigo para os rapazes, que poderiam morrer afogados. Ninguém conseguiu demove-lo de crer no mérito da sua façanha.
A barbearia impressionava com sua cadeira, uma verdadeira lavra da arte da metalurgia e da marcenaria. Os titulares eram Hermes e Elias, o primeiro tendo como assistente o João Barbeirim, promissor já no nome. Na seqüência do tempo também João Bonitinho e Élio apararam barbas e cabelos poçõenses. As crianças sentavam em uma tábua que era colocada nos braços da cadeira, para dar altura. Cobertos pela toalha branca ficavam ali, imponentes e imóveis, enquanto a máquina número zero, um ou dois deixava apenas o pimpão. O perfume gostoso da loção após barba, no cangote escanhoado pela navalha “Solingen”, dava por encerrada a tarefa de seu Elias.

Da tenda de Zé Sapateiro saiam para novas quilometragens os pisantes de senhoras e senhores, moças, e rapazes. Era capa-fixa para delicados “ scarpins” e meia sola para os robustos calçados Clark.
Não negando a profissão, Celso Relojoeiro era calmo e pontual. Atrás de sua montra de vidro, cheia de potinhos com peças e esqueletos de relógios, colocava o monóculo para examinar as minúsculas engrenagens de um Omega Ferradura.
Menos pontual e mais reservado, o ourives Zé Sobrinho freqüentava a sua lojinha com hora marcada, dependendo dos compromissos de compra e venda.
Já na esquina com a rua Olimpio Rolim, de frente inclusive para esta, ficava Giovanni Sola, que, não se enganem, não era sapateiro mas mestre marceneiro. A sua marcenaria em bom dialeto de Mormanno era chamada de “putía”, o que nos provocava risos mal intencionados.
O beco está lá, agora chamado de calçadão, o chão é cimentado, tem bancos e grandes luminárias redondas e as lojas se chamam “boutiques”.
A placa azul e as lembranças tenho guardadas comigo, e os artistas, onde estarão ?

Eduardo Sarno
Maio/97

05 junho 2009

Bodas de Prata





Familia Corinto Sarno- 1954


O casamento de Corinto Sarno e Annina Sangiovanni foi em Mormanno na Itália, em 1929. Em seguida vieram para Poções. Vinte e cinco anos depois, em 1954 o jornal local "O Comércio" noticiava :

Festejou suas Bodas de Prata a 12 do corrente o casal Corinto Annina Sarno, cuja efeméride constituiu um alto acontecimento social.
Às dez horas foi celebrada Missa em Ação de Graças na igreja do Divino Espírito Santo, sendo oficiante o Revmº Padre Honorato Andrade Nascimento. Em seguida as pessoas presentes à solenidade levaram o casal até à sua residência. Nessa ocasião, à noite, o casal recepcionou a sociedade Poçõense em sua residência, cumulando de gentilezas os presentes, havendo danças que se prolongaram até as primeiras horas do dia seguinte. Destacou-se, ainda, a homenagem que lhe fora prestada no Fórum desta cidade quando o Exmo.Sr. Dr. Eurico Alves Boaventura, Juiz de Direito da Comarca mandou consignar na ata da audiência daquele dia, um voto de parabéns ao Sr.Corinto Sarno e Exma. Família, pela feliz efeméride, pelas suas qualidades de homem de bem, amigo de Poções, cuja demonstração recebeu o apoio dos advogados presentes e auxiliares serventuários da Justiça
.

Os presentes oferecidos pelos convidados ao casal eram de metal prateado , uma alusão às Bodas de Prata, e alguns com motivos ligados à Itália. O bolo artísticamente confeitado, era composto de dois grandes corações ligados por laços a sete corações menores, uma menção aos filhos.





Audiência Especial


Aos doze dias do mês de maio de mil novecentos e cinqüenta e quatro, nesta cidade de Poções, no edifício do Forum e sala das audiências, às quatorze horas, sob a presidência do Excelentíssimo Senhor Doutor Eurico Alves Boaventura, Juiz de Direito desta Comarca, comigo escrivão de seu cargo abaixo assinado, foi aberta audiência especial pelo porteiro dos auditórios Lindolfo Deocleciano de Souza. Pelo Doutor Juiz foi dito o seguinte: Comemorava hoje o casal Corinto Sarno as suas bodas de prata de casamento. Fato natural numa celebridade. Todavia, o caso em foco merece especial menção dadas as características de que se reveste. Imigrantes italianos, teem senhor e senhora Corinto Sarno se integrado na vida bahiana de forma decisiva. Todos os filhos nasceram aqui. O chefe leva em alto conceito o seu padrão moral de vida, dirigindo um dos maiores, digo, um dos grandes estabelecimentos comerciais da zona. De certo que outros casaes menos aquinhoados de riquezas festejarão esta efeméride igual e disto não fazemos referência aqui. Isto não nos impede de registrar com alegria a alegria maior do casal Corinto Sarno. Por vários motivos: na sociedade local eles representam exemplo edificante. Fazem da família o mais alto motivo da sua vida. E o mundo se afoga justamente no inverso, no desprestigio da família. Justo é que, gozando o casal de destaque na sociedade ambiente e por isso mesmo sendo espelho para os que o cercam, justo é que se ressalte este sentimento da família que espalham senhor e senhora Corinto Sarno. Justo é que, no foro de Poções, se homenageie um casal tão só por ser ele padrão de virtudes cívicas e morais, exemplo seguro para os moços que tiveram a desdita de surgir num mundo sufocado de interesses bastardos, num mundo em que o sentimento de família é anacronismo, exemplo seguro de que a felicidade nasce nas quatro paredes de um lar temente a Deus e obediente aos ditames da moral. Por isso fazia o Doutor Juiz constar no termo de audiência, um voto de congratulações ao digno casal, sendo este fato levado ao seu conhecimento. Associaram à homenagem prestada ao casal Corinto Sarno, o Doutor José Sabino Costa, Ruy Espinheira, Antonio Agripino da Silva Borges e João Caetano Magalhães, pedindo ficasse consignado nesta audiência. Em nome dos auxiliares e serventuários da Justiça, pediu o escrivão abaixo assinado que se consignasse nesta audiência a sua solidariedade e satisfação por este acontecimento de alta importância. Nada mais havendo a tratar nem quem requeresse, mandou o Doutor encerrar a audiência, com as formalidades de estilo e lavrar o presente termo, que assina com todos. Eu, Julio da Rocha e Silva, escrivão, o subscrevi.(aa) Eurico Alves Boaventura, José Sabino Costa, Ruy Espinheira, Antonio Agripino da Silva Borges,João Caetano Magalhães, Lindolfo Deocleciano de Souza, Julio da Rocha e Silva."



Dr. Eurico Alves Boaventura



Convidados

A extensa lista de convidados - 131 pessoas incluindo as familias - foi elaborada de próprio punho por Corinto Sarno. Dela não fazem parte os irmãos, cunhadas e cunhados por serem íntimos da família.
A importância da edição desta longa lista é não só mostrar o universo social e geográfico em torno da Familia Sarno como também servir como um catalisador da memória, ajudando a relembrar e relacionar pessoas influentes na área eclesiástica, militar, civil e comercial.
Levando em conta a lista e os telegramas recebidos, as localidades representadas foram: Salvador, Poções, Jequié, Conquista, Boa Nova, Iguaí, Ibicuí, Jacobina, Amargosa, Ubaíra, São Paulo e Santos.
Nota-se na lista a pouca participação dos sobrenomes italianos que estavam em Poções no começo do século. Por motivo de mudança, falecimento etc., ainda permaneciam, entre outros, os Benedictis, Schettini,Chiappetta, Grisi, Labanca, Napoli e Domarco.
A vinculação da familia Sarno com a sociedade poçõense remonta ao ano de 1896, com a chegada de Francesco Sarno. Até a década de 20, quando chegou a maioria dos membros da familia este relacionamento se consolidou. Nas décadas de 30 e 40, com a intensa participação na vida comercial e religiosa da cidade, não só a familia Sarno, mas todos os italianos que moravam em Poções estavam perfeitamente integrados com a sociedade local. A década de 50 foi realmente o auge, com todos os irmãos Sarno já estabelecidos e com filhos crescidos. A partir da década de 60, com a dissolução da sociedade dos irmãos e a ida de uma parte deles para Salvador, houve uma redução significativa na participação da familia na vida da cidade.
Podemos então considerar a extensa lista de convidados para as comemorações das Bodas de Prata do casal Corinto - Annina como um marco na história da familia Sarno em Poções :

Affonso Liguori
Alcides Fagundes
Altamirando Monteiro
Ana Maria Grisi
Ana Miccuci
Ângelo Netto
Angiolina Labanca
Antonio A. Britto
Antonio Aguiar
Antonio Leto
Antonio Orrico
Antonio S. Pithon
Antonio Soares
Antonio Theodoro Andrade
Antonio Torregrossa
Argemiro Pinheiro
Aristides Vasconcellos
Arlindo Carvalho
Arlindo Martins
Arnaldo Fagundes
Arthur Brandão
Asclépio Napoli
Asdrúbal Brandão
Aurélio Grisi
Aurinha Trindade
Bernardo Messias
Carlos Acierno
Carlos Freire
Carlos Souto Maia
Carlos Torres
Catão Moraes Pinto
Cel. Alberto Lopes
Celso Carvalho
Cidinho Fagundes
Cleofano Lamego
Clovis Pereira
D. Florêncio Vieira
D. Gironda Carvalho
D. Julieta Campos de Sá
Daniel Alves
Deolino Luz
Dona Célia Ferreira
Dr. Agripino Borges
Dr. Alcides Pinheiro dos Reis
Dr. Aloísio Euthalio da Rocha
Dr. Antonio Carlos Barbosa
Dr. Antonio Espinheira
Dr. Ardson Leal
Dr. Ari Alves Dias
Dr. Carlos Geraldo Oliveira
Dr. Edson Porciúncula
Dr. Eduardo Araújo Filho
Dr. Eurico Alves Boaventura
Dr. Fernando Costa
Dr. Geraldo Espinheira
Dr. Innocencio Borges
Dr. João Caetano de Magalhães
Dr. José Macedo
Dr. José Sabino Costa
Dr. Luiz Braga
Dr. Pedro Alves ...
Dr. Vicente Pithon Barreto
Eliomar Moraes
Elza Lago
Emério Pithon
Ernesto Carvalho
Euricles Macedo
Felippe Augusto Aragão
Felix Magalhães
Fernando Brandão
Fernando Magalhães
Fernando Schettini
Florindo Luz de Moraes
Francisco P. Junior
Francisco Paradella
Galdino Vieira
Geminiano Nunes de Moraes
Helena Vasconcelos
Hildebrando Rocha
Homero Magalhães
Ida Benedictis
Itamar Espinheira
Ivan Mattos
João Curvelo
João de Deus Vitória
João Gusmão Ferraz
João Silva Lago
Jolanda Gallo
Jorge Bahia
José Domarco
José Maradei
José Nogueira
José S. Pithon
Josine e Jacy Leone
Julio da Rocha e Silva
Juvenal Oliveira
Juvêncio Lago
Kueng
Leôncio Britto
Lindolfo A. de Britto
Louga (Boa Nova)
Manoel Aguiar
Manoel Cupertino
Marcionillo Curvelo
Maria Britto
Mario Borba
Mariquinha Amaral
Massimo Benedictis
Miguel Lopes
Nemésio Teixeira
Nomi Moraes
Octaviano Santos Mascarenhas
Octavio Curvelo
Olimpio Rolim
Pe. Honorato Nascimento
Pe. Leônidas Spínola
Profa. Olívia
Raimundo M. Magalhães
Raimundo Paradella
Raul Pithon Barreto
Roberto Prudente
Rosa Chiappetta
Rosina Grisi
Saturnino Luis de Macedo
Serafim Souto Maia
Ten. Alfredo Jacob François
Teresa Luz
Tullio Orrico
Vicente O. sarno
Viúva Laura Sampaio
Vivaldo Pithon Barreto




Dr. Eurico Alves Boaventura ( Centenário)

Nascido em 27 de junho (1909-1974), bacharel em Direito, fez carreira na magistratura. Foi um dos principais poetas do grupo modernista surgido em torno da revista Arco & Flexa (1928-1929), colaborou em vários periódicos literários de Salvador e do Nordeste. Deixou muitos textos inéditos, alguns deles publicados postumamente : Fidalgos e vaqueiros (UFBA-1989, Poesias (FCEBahia,1991), A Paisagem Urbana e o Homem- Memórias de Feira de Santana (UEFS,2006).
Na comemoração dos 100 anos de nascimento estão programados eventos e homenagens em Salvador e Feira de Santana.

Eduardo Sarno
4.junho.2009


03 junho 2009

Italianos em Poções

Relação dos italianos natos que moraram em Poções - Bahia
(Nas fotos: Grisi, Sarno,Mensitieri, Orrico, Sangiovanni, D'Andrea)

Francesco Sarno (Chico Sarno)
Fortunato Orrico
Giuseppe Arléo
Biaggio Grisi
Giuseppe Miraglia
Carlo Acierno (pai)
Giuseppe D’Andrea
Antonio Perrone
Giovanni Rotondano (João Grande)
Chegados depois de 1900:
Vincenzo Santis
Nicola Scaldaferri
Francesco Scaldaferri
Maria Scaldaferri
Celeste Pesce
Antonio Pesce
Carlo Pesce
Francesco Pesce
Mariannina Pesce Acierno
Carlo Acierno (filho)
Vincenzo Sarno
Corinto Sarno
Valentino Sarno
Camillo Sarno
Luigi Sarno
Vincenzo(Orrico)Sarno
Matilde Sarno D’Andrea
Annina Sangiovanni Sarno
Mariannina Sarno Grisi
Giuseppe Grisi Sarno(de Aurélio)
Giuseppina Grisi Sarno
Angelina Grisi Sarno
Emilio Sarno
Francesca Fasano Sarno
Fedele Mário Sarno
Vincenzo Sarno Sobrinho
Teresa Sarno
Rosina Sarno Libonati
Américo Libonati
Antonio Libonati (médico)
Annunziata Libonati
Vincenzo Ianelli
Ângelo Logetto
Ângelo Larocca
Rosário Giannini
Michele Schettini
Francesco Schetinni
Rafaele Schettini
Mariannina Orrico Schettini
Fernando Antonio Schettini
Teresa Schetinni
Giuseppe Orrico Schettini
Serafina Orrico Schettini
Giuseppe Schettini
Concetta Orrico Arléo
Mariannina Pesce Orrico
Giuseppe Napoli
Nicola Tommasi
Michele Caselli
Giovanni Caselli
Adelina Capo
Magdalena Capo
Graciano Capo
Anésio Bloise
Giuseppe Bloise
Vincenzo Bloise
Biaggio Labanca
Angelina Labanca
Massimo de Benedictis
Michele de Benedictis
Ernesto de Benedictis
Rosa Schettini de Benedictis
Bianca de Benedictis
Ida de Benedictis
Aurélio Grisi
Ângelo Grisi
Rafaele Grisi
Giuseppe Grisi
Michelle Grisi
Giuseppe Grisi (de Aurélio)
Rosina Mensitieri Grisi
Anna Maria Grisi
Pasquale Chiapetta
Rosina Chiapetta
Giuseppe Domarco
Antonio Carlomagno
Michele Ferraro
Afonso Riccio
Florida Ferraro
Ciro Lilli (médico)
Fortunato (motorista)
Giovanni Liguori
Afonso Liguori
Giacomo Conte
Napolione Savastano
Giuseppe Lamboglia
Giovannina Lamboglia
Giuseppe Vita
Michelle Vita
Vincenzo Palladino
Giuseppe Palladino
Pasquale Palladino
Amedeo G. Sangiovanni (Chico)
Anna Maria Sangiovanni
Pietro P. Sangiovanni
Michelle Sangiovanni
Giovanni Sola
Carolina Caputo Sola
Giuseppe Sola
Nicola D’Antonio
Nicoletta D’Antonio
Rocco D’Antonio
Assunta D’Emidio
Adolfo D’Emidio
Berardo D’Antonio
Bruno D’Antonio
Antonio Sordi (conde)
Mariuccia Sordi
Mariuccia Sordi (Mãe)

02 junho 2009

A Sala de Visitas

Situada na parte nobre da casa, com um janelão abrindo para a rua da Itália, a sala de visitas estava sempre limpa e fechada. O toque de classe ficava por conta do assoalho, onde os tacos pretos formavam grandes quadrados concêntricos entre os tacos amarelos. E também do lustre de quatro braços e pingentes de cristal, e as cortinas no janelão e os bandôs em cima das portas, estampadas com grandes rosas, combinando com os sofás.
Nas paredes estavam as fotos emolduradas, grandes e ovais, dos nossos avós paternos Fedele Sarno e Teresina Minervini e maternos Pietro e Ágatarosa Aiello Sangiovanni.
Acima do grande sofá estampado, em foto ampliada e retocada à mão em São Paulo, o casal Corinto e Annina.
Para nós aquelas fotos eram um sinal de que tínhamos um passado, uma descendência. Não havíamos conhecido nossos avós, que ficaram na Itália e já eram falecidos, mas eles estavam presentes não só na parede da sala de visitas de nossa casa como também na de nossos tios, na mesma rua, o que nos dava um sentimento de certeza, segurança e familiaridade.
O mobiliário era simples e clássico, tipo “casa de boneca” com sofá de três lugares, duas poltronas e banquetas. Posteriormente foi acrescido de um enorme móvel envernizado. Era uma das primeiras radiolas da cidade, comprada por meu pai. Na parte superior tinha duas tampas que quando levantadas davam acesso ao rádio e ao toca-discos, que meu pai chamava de “piqueup” , pronunciando “pick-up” como se escreve em inglês.
Na parte de baixo ficavam os compartimentos onde eram acomodados os álbuns com discos de 78 rotações. Os Long Plays (LP) de 33 rotações só surgiram mais tarde, mas o toca disco já comportava esta alteração. A agulha servia para tocar mais de um disco e havia uma haste que permitia colocar vários discos empilhados, que iam caindo e tocando na seqüência.
As visitas, com dia e hora marcada, chegavam pontualmente depois do jantar. A sala iluminada, com as janelas abertas, recebia o casal visitante e todos educadamente conversavam até dez, onze horas da noite. Neste entrementes minha mãe orientava minhas irmãs para servirem bebidas e doces.
Muitas visitas eram retribuições às que meus pais haviam feito, principalmente a médico, juiz ou promotor recém-chegados em Poções. Este era o costume de dar as boas vindas.
O médico Dr. Antonio Carlos e sua esposa D. Lúcia, quando nos visitavam tinham um papo agradável. Ele gostava de contar as piadas de salão da época:
“-Um interiorano foi viajar de avião pela primeira vez, mas se recusou a embarcar quando viu o nome “Panair” no avião. Disse que ali estava escrito “para não ir” e de fato não foi. Coincidentemente o avião caiu. Tendo remarcado a passagem aceitou embarcar porque desta vez estava escrito “Convair”, o que, segundo ele, significava “convém ir”!”
Em dezembro armava-se na sala a grande árvore de Natal. As caixas com as lindas bolas coloridas eram retiradas cuidadosamente do armário e minhas irmãs enfeitavam a árvore, sem faltar a estrela no topo e os presentes no chão.
Caso no balanço anual as nossas malcriações tenham deixado mais saldo do que nosso bom comportamento, havia, segundo a tradição, um pequeno saco de carvão nos esperando! (1)
A sala de visitas também era aberta durante o dia, quando ocasionalmente chegavam os “marreteiros” ou viajantes mascates, vendendo colchas, toalhas, lençóis, cortinas, etc. Chegavam de paletó e gravata, grandes bigodes, sotaque do sul – mas de imigrantes – e grandes malas de couro. Estas eram abertas e tudo se mostrava e se exibia, espalhando pelo sofá, poltronas e cadeiras.
Minha mãe mandava chamar minhas tias e todas vinham olhar, escolher... e pechinchar os belos tecidos. O acerto final era feito com os tios na loja, que davam então a derradeira pechinchada. Estas peças que eram compradas e as que se bordavam em casa eram tão bonitas que o enxoval de minha irmã Aurora ficou exposto na sala de visitas para familiares e amigas.
Mas, havia os riscos. Minha mãe e a cunhada Ana Maria Sangiovanni compraram dois baús com enxoval completo, pagaram e até hoje, pelo que se sabe, nunca receberam...
Era também nesta sala que eram recebidos os namorados das minhas irmãs. Vinham de Salvador Amarílio Mattos, Garibaldo Santana e Manoel Alfredo Mercês, e as recepções eram cerimoniosas, com direito a posterior noivado oficial. Eles ficavam ali namorando, e nós passávamos por lá eventualmente para um rápido papo ou para ouvir o disco compacto de Agostinho dos Santos, que Manuel Alfredo havia trazido.
Nos casamentos era na sala de visitas que minhas irmãs davam a recepção e se reuniam todos os convidados. Foi em uma destas festas que Ruy Espinheira Filho, num desconforto gástrico vomitou em cima de minha mãe, sujando o vestido de gala.
Foi ali também que, anos depois faleceu meu cunhado Garibaldo, na sala já transformada em quarto, depois da reforma da casa. Ele faleceu dormindo, certamente sonhando com os bons fantasmas que ainda habitavam aquela sala de visitas.
(1)Existe uma lenda cristã que fala da velha que recusou pousada aos Reis Magos quando a caminho da visita a Jesus. Arrependida pela sua atitude, ela passou a procurar por eles, em vão. Para compensar então, passou a distribuir presentes e balas para as crianças bem comportadas e carvão para as que não eram 'boazinhas', deixando as prendas dentro de meias.

Eduardo Sarno
Abril/2005

01 junho 2009

A Fresa

Em Poções, ocasionalmente comíamos a “fresa”, um dos hábitos culinários italianos que perduram até hoje em algumas padarias locais, sob encomenda.
Emilio Sarno freqüentava a padaria de Seu Arlindo, e o orientava como preparar a massa, dar forma e assar. Diariamente, depois que saia do Armazém Sarno, ele ia comprar o jornal e passava na padaria para comprar o pão ou a “fresa” que tinha encomendado.
A palavra “fresa” é no sentido de franzido, enrugado, que é como se apresenta a parte superior da mesma.
Segundo Rohlfs, vem do latim “fresus”, no sentido de “tritato”, triturado:
“ Fresa – focaccia (di farina grossa o di farina castagna) tagliata circolarmente in due parti e cotta un’ altra volta nel forno mo’ di biscotto”. (Bis :duas; cotto: assado - assado duas vezes.)
“ Fresa –pão cozido ao borralho (de farinha grossa ou de farinha de castanha) cortado circularmente em duas partes e assada novamente no forno, à maneira do biscoito.” O borralho é a cinza -“cenere”-, a brasa. (Daí a “Gata Borralheira” em português e “Cenerentola” em italiano, a Cinderela do conto de fadas.)
Leandro Orrico também nos dá esta definição:
“Fresa – pane biscottato a forma di ciambella sezionata” -(Fresa – pão assado duas vezes com a forma de rosca seccionada.)
Recorda-se Vincenzo Antonio Sarno , nascido em Mormanno, que vemos na foto com as “fresas” : “-A parte superior, de fato é toda enrugada. Seu formato é de círculo, com diâmetro externo aproximado de 17 centímetros. Degustava-se com alho cortado em pequenos pedaços e bastante azeite de oliva, mas antes era molhada em água morna, pois era crocante.”
Segundo Carmine Marotta, “a “fresa” é um “biscoito de pão” e é típico da Basilicata do sul e da Calábria do norte. Consta que a fresa tem origem entre os pastores do Apennino Calabro-Lucano, justamente na região entre Trecchina e Mormanno.
Para fazer a “fresa” utiliza-se um pedaço de pão que tem uma forma circular. É dividida na metade de modo a se ter dois anéis de pão, e é levada ao forno para ser novamente assada.
A “fresa” é usada atualmente nesta zona do sul da Itália para o desjejum matinal. É molhada com água de maneira a torná-la um pouco macia, depois se coloca azeite de oliva e se come junto com o tomate temperado com óleo, sal e orégano. Pode ser conservada por vários meses, razão pela qual os pastores a usavam.
É ótima com mussarela de búfala, tomate com azeite de oliva, orégano, sal e erva doce. Uma verdadeira degustação da cozinha tradicional de Trecchina, a boa e natural.”
Fernando Sarno,mantendo a antiga tradição, descobriu que também em Salvador, perto da Casa d’Itália, na Padaria Favorita, pode-se encomendar ao padeiro homônimo – Fernando- um lote de “fresas” simplesmente deliciosas.
Aliás, dois lotes: um para quem encomendar e outro para quem fez esta crônica!

Eduardo Sarno
Maio/2009

31 maio 2009

A Loja dos Sarnos

Era a loja do meu pai e dos meus tios. A firma foi fundada em 1896. A primeira loja, no tempo de tio Chico e Vicente Sarno, era na atual Rua da Itália, onde mais tarde ficou sendo a casa de tio Emílio. Na frente era a loja e atrás a morada. A loja teve mais mudanças do que evolução. Muito semelhante à cidade de Poções, na Bahia .
Com o tempo foram chegando os outros irmãos de Vicente: Camilo, Valentim, Luis, Emilio, Rosina, Corinto, e o primo Vicente (Orrico) Sarno . E todos moravam em quartos nos fundos da loja.
Tudo muito prático, mas não muito cômodo. Era o inicio do século, Poções ainda era uma cidade muito pequena e as estradas estavam por fazer. A luz era candeeiro e a água trazida por aguadeiros. Eles podiam pagar algumas regalias, mas tinham limitações da própria época. A farinha de trigo para fazer o “spaghetti” chegava muitas vezes estragada da “Bahia”, como todos chamavam Salvador.
A loja foi transferida depois para um sobradão na praça, o único da cidade. Era a época da Segunda Guerra e, apesar de italianos, continuaram merecendo a fidelidade da clientela.
Uma parte do sobradão desabou com uma enchente e a loja passou para o outro lado da praça, ocupando um imóvel que havia sido de Giuseppe D´Andrea, que tinha se mudado com a família para Jequié, inconformado com a insegurança trazida pelos jagunços.
Mas nem assim a loja ficou livre das enchentes. Quando o açude ameaçava estourar, éramos acordados de madrugada para ajudar a transportar as mercadorias para nossas casas, que ficavam em lugar mais alto, na rua da Itália. Era uma fantasia para nós vermos as casas atulhadas de mercadorias as mais variadas. Convivíamos durante algum tempo com pilhas de tecidos, caixas de chapéus e sapatos, perfumes e carretéis.
O auge da loja foi quando teve vitrine, vendia secos e molhados, tecidos e ferragens.
Tinha de um tudo, e quando não tinha dava-se um jeito.
Para quebrar a monotonia do trabalho no comércio, os tios em geral, e Valentim em particular, eram chegados a uma pilhéria como a história de que havia chegado um produto novo fazia o freguês cheirar amoníaco.
Mas tudo terminava bem, eles não perdiam nem a piada nem o freguês nem o amigo.
Naquela época quem queria um terno comprava o tecido na Casa Sarno e ia na alfaiataria de Otoniel, no Beco dos Artistas encomendar o feitio. Um dos fregueses era o sr. A.S. de Iguaí, que sempre comprava com Valentim.
Baixinho, mal passando da altura do balcão, o Sr. A.S. pedia dois metros e meio de tecido para fazer o terno.
Valentim, com o jeitão dele dizia bem alto, já provocando:
"- Mas para você meio metro serve !"
Nas prateleiras superiores da Casa Sarno ficavam as enormes caixas redondas dos chapéus "de massa", como eram conhecidos, para diferenciar dos chapéus "de palha" .
Quando não tinha o chapéu de número adequado para a cabeça , Valentim colocava a mão aberta na nuca do freguês e ajustava o chapéu diante do espelho .
"- Olha, este aqui dá bem justo!" ...e embalava o artigo !
No depósito da Casa Sarno tinha um estoque de escarradeiras esmaltadas, já em desuso. O esmalte estava corroído e Valentim então passou uma tinta e vendeu como cuscuzeiro.
Num sábado, que era o grande dia, um mateiro comprou o tal do "cuscuzeiro" e no sábado seguinte já entrou direto para falar com Valentim:
" Olha aqui seu "Valintim" , o senhor me vendeu um cuscuzeiro ou um chuveiro ? olha quanto buraco !!"
Em outra ocasião Valentim vendeu 5 calças grandes para seu L., pai de M. casada com M.S..
Quando ele chegou em casa a esposa, D. B. estranhou, mas ele argumentou, convencido:
"- Mas Valentim me garantiu que eu ia engordar !!"
Era o tempo das boas prosas, da chegada dos viajantes contando novidades, abrindo catálogos no balcão, fazendo todos sonharem com São Paulo, que parecia que nem era Brasil.
Flop, flop,flop, eram as peças de tecido sendo abertas em cima do grande balcão de madeira, para a freguesa examinar. Ela, que havia apontado timidamente para uma peça, agora via quatro ou cinco já abertas em cima do balcão. E o primo Irineu querendo abrir mais. E a freguesa não sabendo como dizer não, terminava por escolher uma metragem de fustão.
Mas se não tivesse o estampado desejado, Irineu não titubeava. Gentilmente pedia licença para ir ao depósito e ia à vizinha loja de Ed Porto Alves, de onde voltava com três peças no ombro. Uma sempre terminava por agradar à freguesa.
Muitas histórias se passaram pelos três grandes balcões de madeira. Ali se debruçavam viajantes, prostitutas, senhoras e senhoritas e mais os doutores da medicina ou do direito. E mais o padre Honorato. Entrava de repente e saia mais de repente ainda. Se encontrava algum garoto era certo que este levaria um beliscão na bochecha. E ao mesmo tempo perguntava "- Como vai seu pai, menino ?" Nem o menino podia falar, pela dor na bochecha, nem o padre podia escutar, porque era surdo.
Era lá na loja que chegava primeiro a revista “O Cruzeiro”. Podíamos ouvir o mundo através do rádio, mas ver só nas revistas ilustradas. Folheávamos com avidez – os mais velhos primeiro – sentindo aquele cheiro de papel impresso que tinha a magia de nos transportar para um mundo inacreditável.
Foi nas páginas de “O Cruzeiro” que vimos “Baby” Pignatari usando sandálias havaianas. Algum tempo depois o primo Fidelão apareceu usando sandálias iguais. Não foi um escândalo. Foi uma revolução cultural. Até aquela data ninguém considerado rico havia saído à rua com o pé à mostra. Ainda mais aquele pezão brancão !
Aos sábados os mateiros e catingueiros enchiam a loja. Da capa colonial ao bacalhau eles compravam de tudo. Os balconistas recebiam reforços: meu pai vinha do escritório e nas férias minhas irmãs ,meu irmão José Fidelis e os primos Fernando, Pietro e Lulu iam de casa para ajudar.
Com o tempo a feira dos sábados, que era só de frutas, verduras e coisas da roça, foi começando a vender o que se vendia na loja. Os marreteiros chegavam com confecções prontas e variadas. Já se via ferragens, sombrinhas e chapéus. A feira foi crescendo.
Aos poucos o movimento da loja foi caindo. Os sócios foram envelhecendo e indo para Salvador. A firma foi desfeita, ficando apenas a loja de Salvador, que passou de tio Vicente para o filho Chico.Tio Camilo, tendo passado por Jequié, ficou depois sendo sócio de Chico. Era a afamada loja do Guindaste dos Padres, no Comércio. Na fachada ainda está escrito "Sarno" e lá dentro ainda tem Sarno: os netos de Vicente e de Camilo.
Em Poções, até hoje ainda existe, na boca do povo, a loja dos Sarnos.

Eduardo Sarno
22.jan.2002

Sites e Blogs Relacionados

http://blogdosangiovanni.blogspot.com/ - Cronicas bem humoradas , cheias de histórias e emoções sobre Poções e seus personagens. O autor é o nosso colaborador Luiz Sangiovanni.

http://www.aib-portoseguro.com/ - Site da Associação Ítalo-Brasileira de Porto Seguro "Anita Garibaldi" , com o objetivo de integrar e divulgar as duas culturas, na Costa do Descobrimento.

http://www.orkut.com.br/ - Familia Sarno - 173 membros
Comunidade elaborada por Sérgio Sarno e Luiz Fidelis Sarno

http://www.casaconfianca.org/
Site elaborado por Carmine Marotta (português/italiano), sobre o seu livro Casa Confiança e a presença italiana em Jequié.

http://www.faronotizie.it/
Site elaborado por jornalistas, cronistas e historiadores de Mormanno (italiano).

http://www.oriundi.net/
Site elaborado por jornalistas em Porto Alegre (Brasil), com notícias e informações do Brasil e da Itália.

http://www.italiaamica.com.br/
Site elaborado por professores e jornalistas da academia de cultura italiana (Bahia-Brasil)

http://www.familia.demarchi.nom.br/
Site elaborado por Mauro Demarchi com relatos, fotos, notícias e diversas matérias.

http://guiapocoes.com.br/
Site elaborado por jornalistas e colaboradores de Poções. Leia as crônicas de Luiz Sangiovanni na página "Histórias com datas" .

http://www.recantodasletras.uol.com.br/ - Publica as crônicas de Luiz Sangiovanni

http://www.diariosdaditadura.com.br/ - Publica a saga de Carlos Sarno na luta contra a Ditadura Militar no Brasil.

O Escritório do meu pai




Ficava no fundo da Casa Sarno e para alcançá-lo, despertávamos a ira do enorme cão policial que ladrava desesperadamente, preso à corrente. Eu me esforçava por acreditar que a corrente era boa e forte, e que a chumbada na parede era sólida.
O escritório era comprido, acanhado mesmo, sem nenhum luxo. Tinha um compartimento de depósito ao fundo, com uma mesa, onde ficava a garrafa de garapa, que eu ia levar todas as tardes. Até garapa de café minha mãe fazia e meu pai tomava. Era pecado capital esquecer de levar a garapa de meu pai.
O que impressionava no escritório era o cofre, um enorme Luso-Brasileiro: verde com filigranas douradas, com uma porta tão espessa, que me dava idéia de solidez das coisas de meu pai, que trago até hoje na lembrança. Transmitia também uma impressão de poder, que eu atribuía a meu pai, porque ele é quem abria e fechava o cofre, manuseando as chaves e o segredo de maneira habilidosa.
Às vezes o cofre ficava aberto e eu via as gavetas e as gavetinhas, e me assaltava um temor, de que os tesouros e segredos que certamente haviam ali fossem roubados.
A escrivaninha era grande e alta, com tampo corrediço de fechar, cheia de escaninhos, sempre repletos de papel. Meu pai, atrás dela. Não era visto de imediato por quem entrava, e isso contribuía para eu tivesse uma sensação de mistério ao entrar ali.
Fazia-o todos os dias para levar a garapa, dar os recados ou pedir dinheiro. Nestas ocasiões ele não precisava abrir o cofre, tirava um maço de notas do bolso e perguntava “-Quanto precisa ?”. Claro, modestamente eu nunca pedia mais que um mil réis.
Ao lado dele, mais duas escrivaninhas, uma que ele ocupava quando estava recebendo alguém, e a outra com uma enorme máquina de escrever Olivetti.
Durante certa época, era Ada, minha irmã, que ficava ali, pois estudava contabilidade, e estava ajudando e aprendendo. Em frente, duas cadeiras e um pequeno sofá de dois lugares,com assento e encosto de madeira, esta, de tirinhas, e detalhes discretos no espaldar e nos braços. Feito de vinhático, provavelmente por algum marceneiro escravo em tempos passados, era o repositório natural e constante de bundas humildes e nobres, civis e eclesiásticas, municipais e estaduais e quiçá federais!
Na parede, uma enorme gravura desenhada por O. Puccioni e impressa nos estabelecimentos Benelli e Gambi (Firenze), tendo no centro o Rei Vitor Emanuel II (1820-1878) e em volta diversas cenas e alegorias sobre a unificação da Itália e a campanha de Garibaldi. Para mim, era como se a Europa ainda fosse medieval e que meu pai tivesse intimidade com reis. Só depois vim a saber que o Reino quase tinha sido abolido por Mussolini.
Às vezes ia com meu irmão José trabalhar no escritório. Era para colar dinheiro velho em folhas de papel celofane e depois recortar. Isto feito, o dinheiro era trocado por novo na coletoria.
Naquele escritório não só eram resolvidos negócios da loja e particulares, como também os da Igreja e do Estado. Católico praticante e virtual conselheiro do pároco Monsenhor Honorato, meu pai tratava ali de assuntos como a construção da igreja nova, a Festa do Divino Espirito Santo, a hospedagem do pregador da festa ou a vinda do Bispo.
De nacionalidade italiana, meu pai não era eleitor nem candidato, mas nenhum prefeito queria fazer nada sem consultá-lo e receber seu apoio. Desde a construção do Ginásio, até a instalação da Companhia Telefonica de Poções ou decidir por onde passar a variante da Rio - Bahia , era ali que tudo se discutia.
Durante todo o dia era interminável a vinda de pessoas para resolver problemas. Eram empréstimos, pagamentos de contas, pedidos de créditos ou simples “dedos” de prosa.
Vinham representantes de firmas de São Paulo – ou viajantes, como eram chamados - pessoas da roça , pessoas da cidade, sendo alguns mais assíduos, como Otávio Curvelo e o padre Honorato. Era um escritório popular e democrático, cívico e religioso.
Enquanto manuseava promissórias, duplicatas e notas fiscais, meu pai via pela janela do escritório a parreira no pátio da loja. Não dava muita uva, mas certamente dava muito prazer ao meu pai poder vê-la, recordando sua terra Mormanno.

Eduardo Sarno
Maio/97

Os Italianos e o Cinema na Bahia

Cine Jequié-1920 - Irmãos Leto


A característica urbana da imigração italiana na Bahia fez com que aqui se domiciliassem muitos trabalhadores autônomos, entre eles técnicos em galvanoplastia, em eletricidade, decoradores, pintores e artes metalúrgicas diversas.
A passagem por Salvador de várias companhias teatrais, inclusive a Companhia Lyrico-Comica Italiana, de Boldrini & Milone, que inaugurou em 23 de maio de 1886 o Polyteama Baiano, em sua nova fase, contribuiu certamente para que técnicos a artesãos tivessem contato com as necessidades e oportunidades locais na área artística.
Por razões geopolíticas, principalmente a carência de recursos naturais e a necessidade de industrialização, a Itália sempre teve grandes cientistas que se dedicaram às pesquisas químicas e físicas no setor da eletricidade. Desde o século XVIII, com Luigi Galvani e o conde Alessandro Volta, continuando no século XIX com Calzecchi-Onesti e Augusto Righi e, já no século XX com Gugliemo Marconi, tiveram sempre uma familiaridade com uma tecnologia que estaria depois vinculada ao cinema.
Segundo Sílio Boccanera, cronista baiano da década de 20, foi o italiano Nicola Parente quem inaugurou, em 1898, o primeiro cinema na Bahia, chamado Cinema Lumiére. Funcionava na rua Carlos Gomes, número 26, onde posteriormente se estabeleceu a pensão Norte Americana. O nome foi uma homenagem aos irmãos Lumiére que, em 1895, construíram o cinematógrafo e apresentaram o primeiro filme em Paris. Parente foi o primeiro a utilizar, aqui na Bahia, a luz oxyetérica.
Cronologicamente correta, a programação do Cinema Lumiére anunciava como a “última maravilha do século XIX”! Além da apresentação inicial do “sempre apreciável trajecto do cortejo da Rainha Victória”, eram oferecidas “novas e interessantes scénas”: “Um corsel manhoso - Desfilada de um regimento turco para a guerra da Grécia - Uma ponte em construcção - Engraçada dança por uma egypsia, num hotel (Egypto) - Grande cortejo de cavalheiros germânos - Os surpreeendentes banhos de alvorada, em Milão - A chegada do trem”.
Com 200 cadeiras e cobrando dois mil réis por ingresso, este cinema teve um “êxito extraordinário” durante três meses, onde os espectadores assistiam cenas esporádicas, precursoras do moderno filme de enredo.
Sílio Boccanera, que nos deixou estas informações, ele também descendente de italianos, reconhece que a primeira exibição cinematográfica aconteceu em 4 de dezembro de 1897, no Polytheama, organizada pelo senhor Dionísio Costa. Mas, “fosse defeito do aparelho, ou imperícia do operador, o fato é que esse cinema não agradou absolutamente ao público, e só fez a sua estréia”.
No ano seguinte, 1899, foi a vez do Teatro São João passar a ter um cinematógrafo. Era de um italiano, que Boccanera não nos deixou o nome. Por pouco, um princípio de incêndio não devorou todo o edifício e o italiano mudou-se com o seu cinema para a cidade de Alagoinhas.
Em março de 1907 foi inaugurado o Cinema dos Salesianos, ordem religiosa fundada por São João Bosco, no ano de 1859, na Itália. Funcionava nos “feriados nacionais de gala ou dias festivos do estabelecimento”.
O Bijou-Theatro-Cinema, inaugurado em 20 de agosto de 1910, na Calçada do Bonfim, era de propriedade do italiano Umberto Marchesini. Com lotação de 300 cadeiras, funcionava no edifício Miramar, próximo à estação da Estrada de Ferro. Em 1911, também na Calçada do Bonfim, funcionou o Recreio Fratelli Vita, pertencente à fábrica de gasosas dos irmãos Vita. O seu gerente era o senhor Domingos Papaléo. Entre 1911 e 1912, funcionou o cinema Rio Branco, na rua do Saldanha, número 2, de propriedade de Gazineu & Araújo.
A inauguração, em 24 de dezembro de 1919, do Kursaal Bahiano (atual Cine Glauber Rocha, antigo Cine Guarany) foi significativa para a participação italiana na história do cinema da Bahia. Projetado e construído pelo notável engenheiro Felinto Santoro, nas difíceis condições de pós-guerra, incluía, além de todas as acomodações necessárias para um cine-teatro de categoria, quiosque, bar, jardim e a balaustrada em torno da praça Castro Alves.
A fachada, de bom gosto e rara beleza, era ornamentada por duas esculturas de dançarinas do escultor francês Guérin, tendo ao fundo a figura de um pavão com seu colorido variando do azul intenso ao amarelo ouro. Nas laterais dessa fachada, havia a máscara da comédia e da tragédia, ambas de autoria do mesmo escultor.
Curiosamente, em uma foto de 1919, o título do filme anunciado no Kursaal Bahiano era “Redempção”, o mesmo título do primeiro filme baiano de longa metragem, de Roberto Pires, que estreou em fins da década de 50, no Cine Guarany, quando se inaugurou uma placa alusiva ao acontecimento.
O nome “Kursaal”, do alemão pouco usual, traduz-se por “sala de espetáculos”. A mudança do nome para Cine Guarany é detalhadamente narrada no emocionante livro “Um cinema chamado saudade”, de Geraldo Costa Leal e Luis Leal Filho.
Felinto Santoro, consagrado engenheiro e arquiteto napolitano, com obras realizadas em Manaus, Belém, Vitória e Rio de Janeiro, além de ter projetado e construído em Salvador o Mercado Modelo e o quartel do Corpo de Bombeiros, entre outras obras, participou também de um concurso promovido pelo governo do estado, em 1920, para selecionar o melhor projeto para reforma do Teatro São João. A Comissão Julgadora classificou o trabalho de Santoro em 1º lugar, mas, por motivos diversos, a reforma não foi levada adiante. Em 1923, as chamas destruíram o teatro.
A 5 de novembro de 1928, com a presença de Mussolini, instalava-se em Roma o “Instituto Internacional de Cinematografia Educativa”, sob os auspícios do governo italiano e da Sociedade das Nações (atual Organização das Nações Unidas- ONU). A Itália, em geral, e também o fascismo sempre estimularam a atividade cinematográfica.
Imigrantes italianos na Bahia, mesmo sem os propósitos doutrinários, desenvolveram esta emulação cultural e, já nos anos 30, o italiano Bráz Labanca era proprietário da Empresa de Luz Elétrica Pública e Particular de Poções e, na década seguinte, do Cine Poções, que anos depois com o nome de Cine Teatro Santo Antonio, pertenceu a Fidélis Sarno. Na cidade vizinha de Jequié, na década de 20 o italiano André Leto, de Trecchina, além das atividades comerciais e do fabrico de gasosa, teve um dos primeiros cinema da cidade - o Cine Teatro Jequié. Já em Itabuna, na região do cacau, o italiano Giuseppe Larocca, manteve em funcionamento um cinema na cidade, nessa época.
Geraldo e Luis Leal, no livro já citado, fazem referências a três cinemas pertencentes a italianos: o Cinema Calçada, inaugurado em 1927, e depois mudado para Cinema Império, em 1932, cujo proprietário era Salvador Fatescha. O Cinema Pathé, inaugurado em 1928, por Humberto Forccuci, e o Cinema Liberdade, na Estrada da Liberdade, que entre 1940 a 1947 pertenceu a Angelo Larocca.
Na atualidade, destacando-se como cineastas, os descendentes de italiano Geraldo Sarno e Tuna (Sarno D’Andrea) Espinheira contribuem com uma extensa filmografia, basicamente nordestina e baiana .

Eduardo Sarno
Dezembro/1997

Bibliografia
Boccanera Júnior, Sílio - Os cinemas na Bahia - 1897/1918. Resenha
Histórica. Tip. Bahiana, de Cincinnato
Melchiades. Bahia. 1919.
Leal, Geraldo da Costa e Luis Leal Filho - Um cinema chamado saudade
Bahia. 1997.
Associazone Nazionale Ingegneri ed Architetti Italiani - L’Opera Dell’ingº-
Felinto Santoro al Brasile. T.E.M.A. - Napoli
1923.
Revista do Cinema Educativo - Anno 2 - nº 2 - Rio de Janeiro - Maio de
1923.